Vocação para mudança: de dormitório a pólo tecnológico
"Tínhamos vocação para ser apenas cidade-dormitório. Não queríamos isso. Então, resolvemos transformar a cidade em um pólo de qualificação tecnológica". Assim o prefeito de Campo Limpo Paulista (SP), Armando Hashimoto, define a principal motivação para a implantação, a partir de janeiro de 2006, do projeto de Cidade Digital. Só no ano passado, a iniciativa formou 4.500 alunos nos cursos de informática oferecidos – mais de 6% da população do município.
A vocação que ele menciona deve-se fato de a cidade de quase 70 mil habitantes, localizada na Serra dos Cristais, estar colada na região metropolitana de São Paulo, a apenas 40 quilômetros da capital. Assim, a tendência era que muitas pessoas escolhessem a cidade para morar, somente, e trabalhassem em São Paulo, Campinas, etc.
Atenta a essa situação, a prefeitura deu início ao projeto que, em médio prazo, quer transformar a cidade em pólo tecnológico. E o caminho escolhido para isso foi a educação em informática. Foram instalados laboratórios de informática nas escolas municipais e montados, em fevereiro de 2007, três Centros Municipais de Informática, cada um com 100 computadores, no centro da cidade, no Conjunto Habitacional São José e no distrito de Botujuru.
Os locais oferecem cursos básicos de informática, gratuitos, com duração média de três meses, divididos em dois módulos: introdução à informática e avançado. O segundo inclui pacote Office (Word, Power Point e Excel), diagnóstico de problemas em hardware e introdução ao Windows XP. O único requisito é ter mais de 12 anos. "Há alunos de 12 anos a 80 anos matriculados. O mais interessante é que o curso não é obrigatório, é voluntário", comenta o prefeito.
Para o programa de ensino ter sucesso, logo no início foi estabelecida uma parceria que fez toda a diferença: a gigante de softwares Microsoft tornou-se a certificadora dos cursos. Ao concluírem os cursos, os alunos recebem certificado da empresa. A parceria com a multinacional já levou o prefeito Hashimoto, a convite de Bill Gates, ao encontro internacional The Government Leaders Forum das Américas, realizado em Miami (EUA), nos dias 3 e 4 de abril deste ano.
A escolha da educação em informática, segundo Hashimoto, segue uma lógica simples: "Muita gente faz programas de inclusão digital com praças wireless, pontos de acesso gratuito, etc. Mas o nosso entendimento é de que quem vai utilizar essas facilidades já está incluído digitalmente. Se a pessoa nunca mexeu no computador, não tem curiosidade de usar esses pontos de acesso gratuito", acredita o prefeito.
Palavra do prefeito
“Tínhamos vocação para ser apenas uma cidade-dormitório. Quisemos mudar isso e transformar nossa cidade em um pólo de qualificação em tecnologia.”
Armando Hashimoto |
Ele adianta que o projeto de Campo Limpo Paulista vai seguir optando pelo caminho da qualificação profissional, deixando para uma etapa futura, ainda não planejada, a instalação de infovia municipal, pontos públicos de acesso, VoIP e outras atividades e programas já típicos de Cidades Digitais.
A opção é explicada pela acidentada topografia da cidade, fazendo da tarefa de instalar uma rede sem fio uma missão quase impossível. "Há dificuldade de visada para colocar antena de internet em tudo. Teríamos que colocar uma quantidade incrível de torres", diz o prefeito.
A conexão de fibra ótica também é descartada, em função dos custos que implicaria e, ainda, pelo fato de muitas das aplicações de Cidade Digital hoje demandarem redes sem fio. Serviços de e-gov também não estão nos planos, pois, segundo Hashimoto, pelo fato de grande parte da população da cidade ser de baixa renda, ainda não há demanda.
Informática nas escolas e especialização dos Centros
Para o futuro próximo, o plano é começar a oferecer o curso básico de informática nas escolas públicas, desta forma atendendo a dois objetivos: desafogar os Centros Municipais de Informática e, ao mesmo tempo, caminhar para que todos os adolescentes saiam da escola fundamental com curso de informática.
Para isso, serão comprados 1.500 computadores pessoais Classmate, da Intel, a serem utilizados nas classes de 5a a 8a série, nos três turnos de ensino (manhã, tarde e noite) das escolas municipais e estaduais de Campo Limpo Paulista, atendendo a 4.500 alunos. "Será 'um computador por carteira'", brinca o prefeito, parodiando o nome do programa Um Computador por Aluno, do Governo Federal. Já foi estabelecida parceria com a Secretaria de Educação estadual para levar o projeto adiante.
Para driblar a falta de capacidade de armazenamento do Classmate, todos os alunos terão conta em serviços de e-mail que oferecem discos virtuais de armazenamento de dados. "Desse modo, poderão guardar nesses HDs virtuais seus arquivos, que ficarão acessíveis de qualquer computador, não só daqueles da escola e não só daqueles da sua sala", explica o prefeito. A meta é que 100% dos alunos que terminarem o ensino fundamental neste ano já saiam do colégio formados em informática básica.
Os Centros Municipais de Informática ficarão, então, liberados para oferecerem prioritariamente cursos de qualificação de mão-de-obra especializada. Novas parcerias estão sendo estabelecidas com empresas do ramo para que sejam as certificadoras de novos cursos a serem criados ou incrementados.
"Estamos caminhando para, cada vez mais, ser um pólo de qualificação profissionalizante de informática. Há um grupo de empresários investindo pesado na sua implantação. Além disso, sabemos que há pessoas de diversos municípios da região interessadas nos cursos de especialização. Com isso, deixaremos de ter abrangência apenas municipal e passaremos a ter abrangência regional. Conseguimos mudar a nossa vocação", conclui, orgulhoso, o prefeito.
Data: 12 de abril de 2008