Um novo profissional para as novas cidades
A modernização tecnológica sempre faz nascer novos segmentos - de produtos, soluções, produção teórica e profissionais. Quase sempre, a prática é o que mais ensina e adapta o que já existe às novas necessidades. É exatamente isto que vem acontecendo com os profissionais que coordenam ou ocupam cargos de decisão nos projetos de Cidades Digitais. A formação é variada − muitos nem são da área tecnológica e aprendem no dia-a-dia o que devem fazer ou exigir.
Por isso, já surge a idéia de criar cursos de formação direcionados aos profissionais e gestores municipais que irão participar, de alguma forma, de programas do gênero. Esse novo tipo de profissional precisa ter uma formação diferenciada: saber não só o que a tecnologia permite e oferece, mas também entender as necessidades sociais e de governo, e conseguir coadunar as duas coisas.
"O perfil do profissional que irá alavancar esses projetos é de um empreendedor, de preferência com uma formação sólida na área de tecnologia, mas também com visão de mercado e antenado com as novidades. O profissional estará sempre aliado às lideranças locais, já que neste cenário todos os atores obterão vantagens da iniciativa", opina Bruno Henriques, da área de treinamento do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), instituição de ensino e pesquisa voltada para telecomunicações e engenharia.
Eduardo Ramos, diretor pedagógico do Instituto Infnet, uma das instituições pioneiras no ensino a profissionais de TI no Brasil, tem opinião parecida. Para ele, que está fazendo doutorado em administração na área de políticas públicas relacionadas com a tecnologia da informação, é importante para o profissional entender de gestão de projetos.
"Provavelmente, as maiores dificuldades que um gestor de projeto de cidade digital enfrentaria não são tecnológicas, mas políticas. A articulação com diferentes atores e comunidades é mais importante para o projeto dar certo do que a tecnologia. Dessa forma, acredito que os profissionais devem se preocupar em estudar gestão pública e também aprender sobre ela participando de outras iniciativas, ainda que não como gestores", defende Ramos.
Tecnologia e gestão
A formação dos profissionais não pode, portanto, se restringir a cursos exclusivamente técnicos − como o de engenharia −, e deve conjugar visões mais amplas sobre a gestão pública. Porém, o aprendizado tecnológico é, sim, importante neste contexto, para dar munição aos gestores.
"Pelo que entendo do atual paradigma de Cidade Digital, é importante que o gestor compreenda, ao menos de forma macro, as tecnologias de rede sem fio disponíveis. Para isso, recomendaria muita leitura, um pouco de experimentação por conta própria e, para aqueles que desejarem conhecimento técnico mais aprofundado, cursos de administração e gestão de redes", diz Ramos.
Questões de segurança de rede são importantes. Por isso, é recomendável que o gestor busque entender, mesmo que de maneira geral, os problemas e soluções associados. "Problemas de segurança, inclusive, podem ter um impacto na aceitação da tecnologia, então o gestor do projeto tem que estar bem preparado sobre o assunto", completa o diretor pedagógico do Infnet.
Há também quem defenda que setores diversificados da sociedade entrem no debate, para não deixar prevalecer o discurso de alguns fornecedores. "O Brasil ainda não está preparado para disseminar este conhecimento adequadamente. Creio ser válido aproveitarmos o conhecimento adquirido em outros países. Mas não podemos esquecer que nossa realidade é distinta e devemos sempre adaptar as idéias a nossa realidade", acredita Henriques, do Inatel.
Além dos coordenadores dos projetos, é interessante que outros envolvidos também tenham formação adequada, para poder haver sintonia e homogeneidade. Lideranças locais, que atuarão diretamente na divulgação e na opinião pública, e fornecedores, que deverão sempre trazer a melhor opção para a cidade, também estão entre os potenciais "alunos".
Independentemente da formação acadêmica que a pessoa tiver, é essencial atualizar-se sempre, pois as novidades na área aparecem a cada momento. Não só no quesito tecnológico, mas também no que diz respeito a práticas de administração pública. "É importante conhecer o mercado", define Henriques.
Quem se capacitar para atuar nesse novo segmento encontrará um leque de possíveis ocupações: desde coordenação de setores ou empresas de informática de prefeituras, até consultorias externas para órgãos municipais, passando por toda a intermediação das negociações com a empresa prestadora de serviços, direção de departamentos específicos, em empresas ou governos, elaboração e execução de projetos junto a prefeituras, etc.
Cursos pioneiros De olho na necessidade de formação específica para profissionais de projetos de Cidades Digitais, o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) desenvolveu módulos de capacitação para esse público. Há um curso rápido com duração de quatro horas, destinado a todos os atores das Cidades Digitais. O conteúdo inclui esclarecimentos relacionados ao conceito de Cidade Digital, aspectos comerciais das tecnologias, o modelo de negócios e sustentabilidade, além de casos de sucesso pelo Brasil. Existe também o curso avançado, destinado a profissionais de engenharia ou de tecnologia da informação (TI), cujo foco é tecnologias, suas características técnicas e funcionamento. Outras informações no site da instituição. O Infnet ainda não oferece cursos específicos para gestores de Cidades Digitais. "Não é algo que esteja nos nossos planos no momento, embora o setor público seja atendido usualmente com os mesmos cursos oferecidos ao segmento privado", informa Eduardo Ramos, do Infnet. |
Data: 02 de maio de 2008
Autor: Maria Eduarda Mattar, com colaboração de Pedro Aguiar