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Transformação do Rio de Janeiro em Cidade Digital será modular

Ex-coordenador do projeto Piraí Digital e atual secretário especial de Ciência e Tecnologia do município do Rio de Janeiro, Franklin Coelho diz que maior desafio na formação de uma Cidade Digital é mudar a cultura da gestão pública.

À frente da Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia (SECT) do Município do Rio de Janeiro desde junho de 2010, Franklin Coelho afirma que a principal diferença entre seu trabalho em  Piraí, município de  26 mil habitantes no interior fluminense, e, agora, no Rio de Janeiro, segunda maior metrópole do país, com população de 6,3 milhões, é de escala.

“No Rio, acaba tendo uma escala muito maior. Por isso, o trabalho vai ter um tipo de planejamento muito mais modular do que numa cidade como Piraí”, disse Coelho, em entrevista ao Guia das Cidades Digitais, na qual elencou uma série de projetos da SECT.

Apesar da diferença de escala, o trabalho segue os mesmos princípios, mas com objetivos ainda mais ambiciosos. “Para além de uma Cidade Digital, o projeto que o Rio está trabalhando é de uma cidade inteligente, que é um passo além. (...) Estamos trabalhando em sistemas inteligentes de gestão, como é o caso do Centro de Controle de Risco”, adiantou Coelho.

Engenheiro com especialização em planejamento urbano e desenvolvimento econômico local e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Franklin Coelho está documentando seu trabalho. Está no prelo um livro de sua autoria sobre Cidades Digitais, baseado na experiência em Piraí. O lançamento será ainda neste primeiro semestre.

“A Cidade Digital é quando você muda toda uma cultura de gestão, nas diversas áreas, em função de uma infraestrutura que abarque toda a cidade”, conceituou Coelho.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Guia das Cidades Digitais - Quais os principais projetos da SECT para 2011?

Franklin Coelho – Ao assumir [o cargo de secretário especial de Ciência e Tecnologia], fizemos um planejamento estratégico, na verdade, uma releitura do Plano Estratégico da Prefeitura do Rio. Esse planejamento estratégico tem toda uma visão do legado que a cidade deve buscar em função de sua agenda estratégica com vistas ao conjunto de eventos internacionais previstos até 2016, desde os esportivos, como a Copa [do Mundo de Futebol, em 2014] e a Olimpíada [de 2016], aos eventos ambientais, como a Rio+20 [Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em junho de 2012]. Nesse caminho, há uma dimensão, um eixo estratégico, chamado “Rio, Capital da Inovação e do Conhecimento”, que define alguns programas estruturantes.

O primeiro programa estruturante é o de conectividade. Temos trabalhado na rede de governo, junto com a IplanRio [Empresa Municipal de Informática, provedora de serviços de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) aos órgãos municipais do Rio de Janeiro] e estamos já implantando a Redecomep [Redes Comunitárias de Educação e Pesquisa], uma parceria da prefeitura com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

Isso significa a maior rede de fibra ótica do município e é fundamental para os institutos de pesquisa, porque hoje qualquer instituto de pesquisa tem que estar integrado a redes internacionais, muitas vezes com conexões pesadas de vídeo, como na telemedicina.

Ao lado disso tem o que a gente está chamando de rede comunitária, a disponibilização de redes também para a comunidade, além de espaços de governo, que é o caso de Santa Cruz, que tem cobertura wireless, no Programa Ilumina Rio. Estamos começando então a discutir como trabalhar os conteúdos dessa rede, com uma visão mais integrada da rede governo e da rede comunitária.

Guia das Cidades Digitais - Quais são os outros programas estruturantes?

Franklin Coelho – O segundo é basicamente na área de inclusão digital. Um dos projetos é a Casa Rio Digital. Estamos já trabalhando com cursos, como tecnologia e comunidade, tecnologia e trabalho, tecnologia de redes, formação em tecnologia de redes, e comunicação em inglês. Já existem oito casas dessas, e a ideia é que a gente este ano faça mais oito. Até o final do ano, serão 16.
 
Outro projeto que está nessa área é o Internet Itinerante, que é na realidade uma van, que tem auxiliado eventos que necessitam mobilidade. No [projeto] Empresa Bacana, que é um evento integrado de vários órgãos e secretarias da prefeitura, o Internet Itinerante atua no sentido tanto de auxiliar as empresas a conseguirem alvará, que é o Alvará a Jato, como a utilizarem a nota fiscal eletrônica.

Além disso, quando tem algum evento de UPP social [projetos sociais vinculados ao programa de Unidades de Polícia Pacificadora, do governo do estado], a gente tem utilizado o Internet Itinerante. O projeto Ilumina Rio tende também a acompanhar as UPPs sociais, com projetos de conectividade para as comunidades, como no caso do [Complexo do] Alemão e da Vila Cruzeiro.

GCD - Que outros projetos podem ser citados?

Coelho - Tem o projeto Protec TI, que é um desenvolvimento de uma experiência já realizada aqui no Forsoft, que é um curso técnico, para alunos do último ano do ensino médio, com apoio de “empresas madrinhas”, que financiam transporte e alimentação desses alunos. Eles fazem o curso ao longo de quatro meses. Ao final desses quatro meses, as empresas madrinhas têm o compromisso de contratar 30% desses alunos.

Tem também um projeto do próprio prefeito, que é a Praça do Conhecimento,  um centro de inovação e interação com a comunidade na área de ciência e tecnologia, usando todos os recursos que a internet permite através de equipamentos diversos. Está prevista para este ano a construção de seis Praças do Conhecimento. A gente deve ter a primeira inauguração em meados do ano.

Por último e não menos importante, vem a Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio, a FAP-Rio, cujo projeto está na mão do prefeito, para ser encaminhado à Câmara [de Vereadores]. É um compromisso de campanha do próprio prefeito. A fundação será voltada para projetos de inovação na cidade do Rio de Janeiro.

GCD - Como os projetos da SECT estão articulados com as demais iniciativas das outras secretarias da prefeitura?

Coelho – A prefeitura tem um conselho que integra várias secretarias. Por exemplo, a própria gestão do projeto Empresa Bacana é discutida a partir desse conselho. Ao mesmo tempo, a SECT, por definição, trabalha transversalmente com a prefeitura. Então, tem um conjunto de projetos sendo feito com um conjunto de secretarias.

GCD - Tem funcionado bem a integração?

Coelho – Tem funcionado muito bem, não temos tido nenhum tipo de dificuldade. Todo o projeto de conectividade é feito em parceria com a IplanRio. Então isso tudo faz parte desse caminho. Além da integração com o estado e com o governo federal.

GCD - Como esses projetos se articulam com os outros níveis de governo?

Coelho - Essa integração, no projeto de conectividade, é até natural, porque eu fiz o projeto Rio Estado Digital. Tenho uma relação direta com o secretário [estadual] de Ciência e Tecnologia, no sentido de como a gente faz um trabalho complementar e não de sobreposição.

Por outro lado, eu venho da experiência da Piraí Digital, que sempre trabalhou no caminho da construção da Telebrás. Então, a gente está, junto com a IplanRio, já trabalhando num convênio com a Telebrás para a cidade do Rio de Janeiro. E ao mesmo tempo, estamos desenvolvendo um projeto piloto com o MCT e com o Ministério das Comunicações nessa área de Cidades Digitais.

GCD - O projeto Piraí Digital, coordenado pelo senhor, é frequentemente citado como um dos casos mais bem-sucedidos de universalização de acesso à internet no âmbito municipal. Quais os desafios a serem vencidos para obter o mesmo sucesso em projeto semelhante na segunda maior cidade do país?

Coelho – Evidentemente, tem uma diferença de escala. Mas o que foi definido como princípio para Piraí está também definido para o Rio de Janeiro: você não pode pensar uma Cidade Digital sem pensar a questão da conectividade com uma estrutura de banda larga. Porém, é preciso fazer uma diferenciação entre “cidade hot spot” e “Cidade Digital”. A “cidade hotspot” coloca alguns hotspots e chama-se de cidade digital, mas isso não são Cidades Digitais.

A Cidade Digital é quando você muda toda uma cultura de gestão, nas diversas áreas, em função de uma infraestrutura que abarque toda a cidade. Isso significa mudar a cultura de gestão do centro de processamento de dados, das secretarias como um todo. Esse desafio é político-institucional. Evidentemente, passa primeiro pela dificuldade de uma cultura de centro de processamento centralizado. Em cada área dessas, você terá alguns problemas de como mudar essa cultura.

O grande desafio é exatamente mudar essa cultura que às vezes está muito arraigada, ou por determinadas formas centralizadas de rede ou pelos próprios aplicativos existentes no interior da prefeitura ou mesmo pela dificuldade de quem tem medo do novo.

No Rio, acaba tendo uma escala muito maior. Por isso, o trabalho vai ter um tipo de planejamento muito mais modular do que numa cidade como Piraí. Mas de qualquer maneira,  o projeto que o Rio está trabalhando é de uma cidade inteligente, que é um passo além de uma Cidade Digital. Para além da conectividade ou de certo caminho de alfabetização digital da cidade, estamos trabalhando em sistemas inteligentes de gestão, como é o caso do Centro de Controle de Risco e do próprio projeto de Praça do Conhecimento.

Data: 15 de março de 2011
Autor: Vinicius Neder

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