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Telemedicina: menos custos, mais saúde

Se em todas as áreas a tecnologia tem feito revoluções, na saúde não tem sido diferente. No setor público ou privado, a telemedicina vem se expandido com o suporte das tecnologias de informação e comunicação (TIC). De simples teleconsultas sem imagem até operações completas mediadas por computador, muitos são os exemplos que permitem vislumbrar como a medicina está sendo definitivamente transformada pela tecnologia.

“Telemedicina é a técnica, não a tecnologia. Trata-se da medicina à distância, feita sem contato físico entre médico e paciente. A rigor, até por meio de cartas pode ser praticada. Hoje, em uma comunicação eletrônica, vem-se usando outras tecnologias que dão suporte a esse tratamento à distância”, ensina Luisa Woge, analista da área de Saúde da Frost & Sullivan, consultoria mundial.

Segundo ela, as vantagens do uso de TIC dentro da saúde são nítidas: amplia o acesso, possibilitando tratamentos em locais remotos; acarreta melhor utilização de recursos, pois não é preciso o deslocamento, seja de pacientes, seja de médicos; aumenta a eficiência e a produtividade. “Ela vem sendo muito importante, por causa da redução de recursos que isso tudo acarreta”, completa.

As possibilidades são inúmeras: as teleconsultas tanto podem ser feitas por videoconferência, ao vivo, quanto com imagens estáticas e e-mail, com o envio de fotos e/ou exames radiológicos. Além disso, uma prática comum neste campo é a de segunda opinião, em que médicos colhem a opinião de outros, estes últimos normalmente especialistas no assunto ou doença que está sendo tratada. A principal fonte para buscar as segundas opiniões têm sido os núcleos universitários especializados em telemedicina.

Em praticamente todo o País, já se tem registro de experiências de telemedicina, a maioria impulsionada e praticada por núcleos universitários. Em Santa Catarina, por exemplo, a Rede Catarinense de Telemedicina, parceria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Secretaria de Estado da Saúde, permite a realização, por mês, de oito mil exames como eletrocardiograma, tomografia, ressonância, entre outros, em 80 municípios. Os resultados são enviados para especialistas na capital, Florianópolis. Tanto o exame quanto o laudo médico são publicados no Portal de Telemedicina do Estado.

No Maranhão, concomitantemente à atual instalação da infovia estadual, será lançado um projeto piloto da Rede Integrada de Telessaúde do Maranhão, com participação de cinco municípios. A interação será entre os médicos e outros profissionais dos postos de saúde municipais. As teleconsultas, que serão realizadas três dias por semana, ficarão para a segunda fase. “O que mais se indicou foi a necessidade de segunda opinião médica. A necessidade é tão grande que o pessoal apontou coisas muito antes da teleconsulta. Querem a troca de opinião, poder mandar por e-mail imagens e exames. Em um segundo momento é que deverá ser feita a automação, ou seja, interligação de equipamentos, teleconsultas, etc.”, conta Marcelo Silva, da Secretaria Adjunta de Tecnologia da Informação e Integração do Maranhão (Seati).

Na cidade de Salvador (BA), a teleradiologia e a telecardiologia vêm sendo usadas nos Pronto Atendimentos (PAs, os postos de saúde municipais). A primeira está em dois PAs; a segunda, em nove. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, cerca de 5 mil eletrocardiogramas são realizados por mês. O exame é enviado a uma central, onde um médico especializado de plantão pode emitir segunda opinião para os médicos dos PAs. Na teleradiologia, o laudo é enviado pela internet, fax ou telefone.

Programas do governo federal integram universidades e atendimento local


O governo federal também está atento à prática e mantém dois programas importantes de estímulo à prática de telemedicina: a Rede Universitária de Telemedicina, iniciativa do Ministério de Ciência e Tecnologia tocada pela Rede Nacional de Pesquisa (RNP), e a Rede Nacional de Telessaúde, coordenado pelo Ministério da Saúde.

O primeiro tem aproximadamente 60 instituições participantes — hospitais e núcleos universitários — e provê aos grupos de pesquisa a infra-estrutura de serviços de comunicação e parte dos equipamentos necessários. A intenção é apoiar o aprimoramento de projetos em telemedicina já existentes e incentivar o surgimento de novos. Em alguns casos, as instituições podem até interagir com redes parceiras na Europa e nos Estados Unidos.

Já a Rede Nacional de Telessaúde tem núcleos em nove Estados. Atualmente em fase final de implantação, a rede terá, quando plenamente implantada, 100 Pontos de Telessaúde ligados a cada núcleo, perfazendo um total de 900. Um pouco diferente da Rute, a Rede Nacional de Telessaúde, que chega mais à ponta, integrando 2.700 equipes de Saúde da Família das diversas regiões do país com os centros universitários de referência.

No Rio de Janeiro, o Laboratório de Telessaúde da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), criado em 2003, é o núcleo local da Rede Nacional de Telessaúde. Para a médica Alexandra Monteiro, coordenadora do laboratório, a telemedicina permite diversas facilidades: “a inclusão digital dos profissionais remotamente localizados, a possibilidade de segunda opinião para casos de difícil diagnóstico, a integração com e entre centros de referência nacionais e internacionais, a educação permanente”, elenca. “Enfim, a globalização da saúde”, resume.

Além dessas vantagens, a médica radiologista comenta também um caso emblemático dos inúmeros usos novos para a telessaúde: “Como um exemplo, podemos citar a tragédia da tsunami na Indonésia, onde o uso da tecnologia auxiliou as equipes de saúde”, relembra.

Distante da Ásia, mas perto da realidade brasileira, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) vem praticando telemedicina extra-oficialmente há quatro anos e, oficialmente, há dois anos, quando foi formalizado seu Pólo de Telemedicina da Amazônia. A maior parte das atividades do laboratório — que é também o núcleo local da Rede Nacional de Telessaúde — se dirige ao interior do Estado, ajudando médicos de postos de saúde de municípios do interior e equipes de Saúde da Família no Estado de mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados.

“Parintins, Itacoatiara, Tabatinga e a comunidade indígena Iauretê, em São Gabriel da Cachoeira, são as localidades com as quais nós mais interagimos, fazendo teleconsulta”, explica Plínio Vinicius Campos, do Pólo. Segundo ele, há um dia por semana reservado para as teleconsultas. Os médicos das unidades de saúde vão selecionando, ao longo do resto da semana, os pacientes para os quais vão precisar de segunda opinião e, em um único dia, fazem uma consulta à distância com os médicos do Pólo, que ficam na capital, Manaus. Quando é necessário buscar opinião fora dali, a interação mais freqüente é com os núcleos especializados na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e na Universidade de São Paulo (USP).

“O maior foco da assistência que prestamos para os municípios do interior é em dermatologia. Aqui, os problemas de pele são endêmicos, e a telemedicina permite muito o uso de diagnóstico por imagem”, conta Campos. “Em Parintins, tivemos recentemente um diagnóstico precoce de câncer de pele. Com isso, o paciente veio de lá para a capital já direcionado para uma unidade de dermatologia, com horário marcado, não enfrentou filas do SUS e foi tratado. Ajudamos a saúde dele e gastou-se menos dinheiro do que seria habitual”, conta ele, resumindo em um único caso todas as vantagens da telemedicina.

Entraves

A telemedicina responde com louvor a inúmeras necessidades na área de saúde. Então, por que não é mais amplamente utilizada? Em que pese o fator cultural — é preciso que as pessoas se habituem com essas novas práticas —, a falta de disponibilidade de conexão em banda larga é o principal motivo.

“A conectividade, a banda larga, seguida pelo interesse dos gestores”, define a médica Alexandra Monteiro, do Laboratório de Telessaúde da Uerj, como sendo as principais razões para não haver mais adesão.

Segundo dados da consultoria Frost & Sullivan, cada imagem de radiografia pesa 6 Mb por imagem; uma tomografia, 400 Kb. Ou seja, é preciso bastante capacidade de transmissão para que a prática possa ser adotada de forma completa. Isso sem contar a taxa de conexão necessária para realizar videoconferências.

“Tem que ter conectividade, preferencialmente por banda larga”, defende Plínio Vinícius Campos, do Pólo de Telemedicina da Amazônia, ligado à Universidade do Estado do Amazonas. Segundo ele, para driblar a realidade — “telecomunicações e conectividade no Amazonas são fatores críticos”, explica — pratica-se telemedicina de baixo custo, com troca de mensagens via webistes, sem vídeo e voz, operando diagnóstico baseados em fotografias e e-mails.

Em um estado como o Amazonas, com mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados, com municípios a milhares de quilômetros uns dos outros e tudo ligado por floresta e rio, “a conexão mais usada é via satélite, mas o custo é caro mesmo para prefeituras”, diz Campos.

“O primeiro passo para o aumento de eficiência é o acesso à informação. Através da infra-estrutura tecnológica é que se cria outra para integrar essa informação, para os profissionais poderem dividir. Ou seja, é a infra-estrutura para que esses processos se desenvolvam que vai permitir que as ferramentas de TI entrem e funcionem em um hospital”, pondera Luisa Woge, analista da Frost & Sullivan para a área de Saúde. Para ela, a pouca infra-estrutura de informática nas cidades pode ser apontada como o principal fator de restrição para a expansão da telemedicina no interior.

Data: 24 de novembro de 2008
Autor: Maria Eduarda Mattar

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