Telefonia barata via celular está em fase de testes
Uma solução para levar telefonia barata via celular para os rincões aonde quase nenhuma tecnologia chega. Essa é a idéia que a Nokia Siemens anunciou durante o seminário SP Wireless, realizado no último dia 3, em São Paulo (SP). Foi a primeira vez que a solução foi exposta para o grande público no Brasil. Antes, somente havia sido apresentada a órgãos do governo federal.
A solução tem nome − Village Connection − e já está sendo testada em cerca de 20 localidades da Índia. Alia uma tecnologia celular que já está amplamente difundida no mundo, a GSM, equipamentos simples de interface e replicação do sinal (desenvolvidos pela própria fabricante) e o aparelho da ponta, para utilizar isso tudo: celulares, também amplamente disseminados. “Mais de 85% da base mundial de celulares é GSM”, diz Mario Baumgarten, diretor de Relações Corporativas para a América Latina da Nokia Siemens, explicando a opção da empresa.
A idéia surgiu a partir da percepção de que localidades com baixo número de pessoas e de pouco poder aquisitivo não estão no campo de interesse das grandes empresas de telefonia. Assim, celulares não são utilizados nesses locais e, quando são, paga-se um preço exorbitante. Como conseqüência, reproduz-se a exclusão tecnológica − e, por que não dizer, digital − e, por tabela, a tão falada exclusão social.
“Não podemos mais cair no erro de inventar novas tecnologias, que normalmente são desenvolvidas para pessoas da área urbana e de alto poder aquisitivo, e esquecer as que já existem. Temos que tornar estas últimas mais baratas”, diz Baumgarten.
Empreendedorismo local
O conceito por trás do Village Connection inclui mais que tecnologia pura e simples. Trata de dinâmica social e envolvimento de microempreendedores locais. Na prática, a solução funciona da seguinte forma: a antena (o tal aparelho especialmente desenvolvido pela empresa) é instalada na torre de telefonia GSM mais próxima à pequena localidade. Dali, capta o sinal e o retransmite diretamente para uma outra antena, instalada na cidade.
Esta segunda antena, para ser instalada, precisa do envolvimento de um empreendedor local (qualquer negociante; não é necessário ter um estabelecimento relacionado a tecnologias), que aceita não só hospedar e instalar a antena (há casos na Índia em que ela é suportada por pedaços de bambu), mas também operar aquele minissistema de telefonia, inclusive gerenciando cobranças e pagamentos pelo uso da rede na localidade. Para executar bem esta tarefa, os microempreendedores são treinados pela Nokia Siemens em planejamento e dimensionamento de rede.
A conexão da antena local com a torre GSM pode ser feita de duas formas: se a distância for muito longa, através de satélite. Se for curta e houver visada, através da tecnologia WiMax. As antenas nas duas pontas podem ser alimentadas por energia fotovoltaica (solar).
Segundo Baumgarten, para funcionar adequadamente e ser sustentável, é interessante que o sistema seja implantado em locais que tenham entre 500 e 1 mil pessoas. Abaixo disso, talvez a solução não se aplique da forma ideal. Em termos de custo, a sugestão da empresa, a partir das experiências em curso na Índia, é de que a cobrança não seja feita por ligação, mas sim via uma taxa mensal.
“As ligações locais, dentro da própria rede, não seriam pagas. Só se cobraria um valor para pagar as conexões para fora, ou seja, dali até a operadora GSM. Em vilas médias, de 500, 600 pessoas, é possível cobrar cerca de U$ 3 mensais, considerando os testes que temos feito na Índia”, diz o representante da Nokia Siemens.
Baumgarten faz ressalvas importantes para que a solução saia do campo das idéias e possa ser concretizada no Brasil. “É preciso ter envolvimento e sinalização positiva do governo. Além disso, há questões jurídicas importantes ainda a serem resolvidas”, diz, não descartando a possibilidade de a empresa fazer um projeto piloto no País. “Mas só faríamos se existisse condição de continuidade”, adianta. “Ou seja, tem que haver vontade política”, resume, lembrando que o Village Connection já foi apresentado, há cerca de dois meses, ao Ministério das Comunicações e à Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel).

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Data: 05 de setembro de 2008
Autor: Maria Eduarda Mattar