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Tabuleiros Digitais: liberdade e autonomia como princípio e meta

Liberdade e autonomia balizam o projeto Tabuleiros Digitais iniciativa diferenciada de telecentros da Faculdade de Educação (Faced) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Criado em janeiro de 2004, o projeto acaba de completar cinco anos de trabalho com uma proposta de acesso aberto, gratuito e comunitário à internet. Há no total quatro centros de acesso à web no âmbito do Tabuleiros Digitais – dois na própria UFBA, um no bairro de Pirajá, em Salvador, e um no interior do estado.

O projeto foi desenvolvido dentro do grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC) como fruto das atividades de pesquisa, ensino e extensão. E para se tornar realidade precisou ainda de uma série de parcerias dentro da própria UFBA: do Grupo de Pesquisa, Tecnologias Inteligentes de Suporte a Aprendizagem (Tisa), vinculado ao Departamento de Ciência da Computação; do Centro de Processamento de Dados, das representações locais do bairro de Pirajá, como parte do projeto Onda Solidária de Inclusão Digital, coordenado pela professora Débora Abdala; além de apoio da Associação de Fomento à Economia Solidária (Bansol), da Escola de Administração.

O professor Nelson Pretto, coordenador do grupo idealizador do projeto, explica o conceito por trás dos tabuleiros: “É fundamental para esses projetos que a liberdade e autonomia estejam em primeiro plano. Associado a isso, uma concepção de ética que valorize o bem público comum e esteja centrada em princípio como a generosidade, a colaboração, o companheirismo, em oposição à perspectiva comercialesca atenção: itálico que assolou todas as esferas da sociedade, incluindo aí a cultura e a educação”. Não é à toa que o projeto está registrado sob uma licença Creative Commons (Atribuição-Uso Não-Comercial 2.5 Brasil License).

Assim, os “tabuleiros” do projeto – ou seja, os móveis especialmente concebidos pelo arquiteto Eduardo Rosetti – são dispostos em locais abertos. Não é preciso fazer cadastro, nem apresentar documento. Basta chegar e acessar. “O anonimato do acesso é garantido e é um dos pilares do projeto. Não queremos que seja um elemento de controle, e sim um elemento propiciador de acesso. Quando você usa um orelhão, você precisa apresentar algum documento para alguém?”, pergunta Pretto.

A comparação com orelhões ajuda a esclarecer a lógica do projeto: é um ponto de comunicação público e de uso de coletivo. A ausência de regras de utilização é uma forma de estimular que os próprios usuários se organizassem num acesso democrático. “E,  dessa forma, os Tabuleiros continuariam pertencendo a todos e a ninguém simultaneamente”, comenta Pretto.

O conceito novo – e a liberdade por ele gerada – acaba gerando alguns conflitos, justamente pelo caráter inovador. “A dinâmica do projeto visa uma auto-organização efetivada pelos usuários quanto ao uso do espaço. A não-conscientização dessa autogestão tem ocasionado alguns conflitos”, reconhece o coordenador. Assim, foi estabelecido um tempo recomendado de uma hora de uso por sessão.

Além disso, o projeto tem feito “campanhas de cidadania, de forma que os usuários compreendam que num espaço público todos têm os mesmos direitos e que isso tem que ser garantido por todos, sem a necessidade de um controle externo”, esclarece Pretto. “Mas isso não é fácil. As resistências são enormes dentro da própria Faculdade. Tanto por parte de professores como de alunos. Essa é uma verdade batalha conceitual que travamos”, pondera.

No projeto há um total de 80 máquinas sem disco rígido, equipadas com softwares livres. Na Faced há 22 computadores, dispostos de duas em duas ilhas (quatro computadores em cada ilha) nos dois primeiros andares e mais seis computadores no terceiro andar. No bairro de Pirajá, são 16 computadores, distribuídos em ilhas com quatro máquinas. Em Irecê a 500 quilômetros de Salvador, há 36 computadores, distribuídos em ilhas com seis máquinas, dentro do Ciberparque Anísio Teixeira, local onde funciona também um Ponto de Cultura (projeto do Ministério da Cultura) e uma rádio web.

Por ser de livre acesso, o projeto não contabiliza número de usuários. Em Irecê, no entanto, como os computadores ficam dentro de uma área fechada em que funcionam outros projetos, a contagem é mais fácil: por lá passam por dia uma média de 450 pessoas para utilizar os Tabuleiros Digitais.

Data: 04 de fevereiro de 2009
Autor: Maria Eduarda Mattar

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