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Professor sugere a municípios adotar programa de formação para ir além dos computadores

Se o uso que se faz da tecnologia vem revolucionando os mais diversos setores, as aplicações na área educacional são algumas das mais transformadoras e chamativas. É isso que estuda — e pratica — há cerca de 15 anos o professor Alberto Tornaghi. No doutorado em Informática e Sociedade, concluído em 2007, o tema de sua tese foi “Tecnologia faz Escola, Escola faz Tecnologia”. Antes, no mestrado em engenharia de sistemas, havia construído o MULEC - MultiEditor Cooperativo para Educação. Para ele, educação e tecnologia devem ser pensadas em uma relação de interdependência.

A tecnologia, defende o professor, não revoluciona nada por si só. O uso que se faz dela é que vai mudar. “É a relação que estabelecemos com ela que faz dela e de nós seres que modificam a realidade. É a relação que estabelecemos com ela que faz dela e de nós seres que, juntos, introduzimos modificações nas práticas educativas. Revoluções não surgem de fora para dentro de qualquer sistema”, analisa.

Foi sobre essas revoluções — educacionais, tecnológicas — e sobre como as escolhas humanas moldam a tecnologia que ele conversou com o Guia das Cidades Digitais. Neste contexto de tantas mudanças, as cidades digitais seriam “uma iniciativa interessante de vulgarizar o acesso à Internet”.


Guia das Cidades Digitais - Informática na educação; educação na informática. Qual a diferença entre uma coisa e outra?

Prof. Alberto Tornaghi - Podemos encontrar diferenças entre as duas expressões, é só procurar. Será sempre uma questão de como e por que as formulamos. A língua é rica e as expressões que usamos são, por vezes, reveladoras do que pensamos e de como entendemos o que nos cerca. Tentando encontrar diferenças entre as duas expressões, tendo a entender informática na educação como a inclusão de atividades e práticas que lançam mão de recursos digitais à prática educativa.

Qualquer coisa como acrescentar um novo recurso ou ferramenta (informática) para fazer algo que já se fazia antes (educação), do jeito que já se fazia antes. Educação na informática poderia ser pensar como as tecnologias digitais (já existentes) podem ser adaptadas e conformadas para que sejam úteis a algum projeto educativo (pré-existente ou não).

Gosto de pensar em uma terceira vertente: informática e educação e informática e educação e.... Como uma relação de interdependência, dialogal, circular... Educação muda a tecnologia que muda a educação. Dou aulas usando tecnologia de forma que não poderia dar sem ela, trabalhando com conteúdos que não fariam sentido sem tecnologia. Uso a tecnologia de forma que não faria sentido usar se não fosse para educação.

No trabalho que faço, a tecnologia muda a prática educativa tanto na forma como no conteúdo, assim como a prática educativa muda a tecnologia. Criei um programa de edição cooperativa, o MULEC, para educação, pois tenho necessidades como educador que posso tratar com tecnologia digital como não posso com outras. Portanto, a educação implicou criação tecnológica.

Por outro lado, desenvolvi um trabalho de criação de animações usando computadores com crianças com dificuldades no processo de alfabetização. As crianças, criando animações, estruturaram narrativas lineares com começo, meio e fim, como a linguagem verbal escrita. Criando e editando as animações, conseguiram estruturar histórias próprias e a linguagem escrita surgiu quase como que num passe de mágica. Não havia mágica alguma, as crianças desenvolveram, em outra linguagem, em outro meio, a capacidade de estruturar pequenas histórias. Juntar palavras foi uma decorrência simples.

Vejo, portanto, que podemos ter um campo rico quando convidamos estas duas senhoras para conversar de igual para igual, a D. Educação e D. Tecnologia. Esta última pode trazer toda a sua família, do lápis e papel ao computador, e o papo será ainda mais animado.


Guia das Cidades Digitais - Aulas de informática nas escolas, na sua opinião, são suficientes para cumprir o dever de ambientar alunos com o uso da informática para fins educacionais? Por quê?

Prof. Alberto Tornaghi - Podem ser uma estratégia, mas não gosto dela, parece-me que tem pernas curtas. É como se usássemos imagens de bichos e plantas para descrever o que é a natureza e nunca fôssemos à vida real para ver um ser vivo de verdade.

Diria que aulas de informática podem ser muito úteis quando se pretende ensinar informática. Quando a idéia é que aprendam a pesquisar, que se façam pesquisas. Para que serve ensinar um aluno de ensino fundamental a usar editores de texto? É como ir a um museu e ficar admirando apenas as molduras dos quadros. Importa que aprendam a escrever e se comunicar
de maneira eficiente. Essa forma precisa ser ágil algumas vezes, bela noutras. Então que se usem editores de textos para produzir textos, para formatá-los de forma a que comuniquem melhor chamando mais atenção para o que for mais importante.

Deixem as aulas de informática para os cursos voltados para a formação de informatas. Lá, são úteis e necessárias. Aulas de informática em cursos regulares de educação básica ensinam só o que não é necessário.

Guia das Cidades Digitais - Em um mundo cada vez mais informatizado, muitas práticas educativas e/ou escolares continuam como eram há quase um século. A informática poderia revolucionar essa realidade? Se sim, por onde o senhor começaria?

Prof. Alberto Tornaghi - A informática pode misturar leite com café? Pode aquecer comida? Pode escolher nosso cardápio? Não, o que faz isso é a escolha que fazemos de como ela deve funcionar.

Podemos determinar ao computador de um automóvel que o guie pelas ruas de uma cidade usando um GPS. Quem determinou isso? Quem escolhe por onde o carro vai? Uma complexa rede de relações incluindo computadores, programadores, sensores, etc.

A informática não faz qualquer revolução per se. É a relação que estabelecemos com ela que faz dela e de nós seres que modificam a realidade (seja lá o que isso for). É a relação que estabelecemos com ela que faz dela e de nós seres que, juntos, introduzimos modificações
nas práticas educativas. Revoluções não surgem de fora para dentro de qualquer sistema. Se e
quando a educação, tal como ela é, deixar de ser útil aos propósitos que cumpre, ela será modificada por quem necessita dela.

A educação tem estado a serviço da criação de mão-de-obra para a organização social em que está inserida. É isso que a faz diferente aqui e ali. Onde é necessário saber pescar para sobreviver, ensina-se a pescar. Onde é necessário obedecer a ordens superiores para manter a
máquina industrial rodando, ensina-se a obedecer ordens.

É a escolha de um projeto de mundo diverso do que vimos vivendo que pode mudar a educação. A tecnologia, seja ela qual for, contribuirá para eregir esta escola, seja ela qual for.

Por que a TV não mudou a educação? Por que o rádio não mudou a educação? E o mimeógrafo? E os aparelhos de slides? E o retroprojetor? Não, as tecnologias não mudam a educação, elas são nossas parceiras para eregir o mundo que os mais fortes impõem aos mais fracos, com as nuances que esses consigam, porventura, conquistar que estejam presentes.

Guia das Cidades Digitais - Que novas práticas educacionais o senhor vislumbra, com o uso da informática em todos os níveis de ensino?

Prof. Alberto Tornaghi - Eu gosto de escrever usando editores de texto. Eles me permitem errar, deixar o erro para lá, seguir com minhas idéias, e voltar ao final com um corretor ortográfico para corrigir tudo sem precisar mostrar a todo mundo os erros que cometo.

Eu gosto de escrever usando interfaces que me permitam criar conexões com outros documentos para que meu agitado pensamento possa ser representado com parte da hipertextualidade com que me vem à cabeça. Eu gosto de usar planilhas para fazer contas complexas.

Eu gosto de pedir ajuda aos amigos, quer conversando quando estão por perto, quer escrevendo mensagens quando não estão ao alcance da voz. Gosto muito disso de poder resolver meus problemas usando e reunindo a competência de muitos.

Eu gosto de poder começar os textos que escrevo pelo final, começar escrevendo a conclusão, depois redigir a introdução e o desenvolvimento da idéia. Gosto de, ao final, perceber que a conclusão deve ser outra e, sem muito trabalho, simplesmente, trocá-la sem ter que passar a limpo um longo texto já escrito.

Essas são algumas coisas que não fazia antes do uso de tecnologia. Essas são algumas práticas que estão presentes em minhas aulas.

Esta entrevista, por exemplo: respondo às questões sem saber como é o rosto ou a voz de quem fez as perguntas [a entrevista foi feita por e-mail]. Curioso isso. Seria melhor podendo estar face a face com quem me entrevista? Possivelmente. Mas seria possível essa entrevista se fosse necessário estarmos face a face? Provavelmente não. O mesmo vale para as aulas que dou: são muitos os especialistas, autores e produtores de bens culturais com que conto nos trabalhos acadêmicos, sejam eles de educação infantil, da educação básica ou da pós-graduação.

Guia das Cidades Digitais - Que conhecimentos de informática devem ser ensinados aos alunos do ensino fundamental? Texto, imagem e planilhas são suficientes ou é necessário ir além, ensinando inclusive programação e outros conceitos/técnicas?

Prof. Alberto Tornaghi – Que conhecimentos eles precisarão para suas vidas? Que conhecimentos precisam para suas vidas agora? É isso que a escola deve ensinar. Se a escola for se ocupar de ensinar o que necessitarão para a vida futura, ou ensinará o que ainda não existe ou ensinará o que não existirá quando se formarem.

Um jovem que esteja terminando o ensino médio hoje entrou para o ensino fundamental em 1996, quando as interfaces gráficas estavam chegando aos computadores. Como pensar, naquela época, em ver imagens do outro lado do planeta em tempo real? Quem poderia pensar, há míseros 12 anos, que teríamos acesso, virtualmente em qualquer canto do planeta, a estes oráculos virtuais que são as páginas de busca? Quem poderia imaginar que escrever uma página para a internet viraria, literalmente, coisa de crianças?

Devemos ensinar na escola o que é necessário já, aqui e agora, para viver neste mundo. Minha escolha pessoal é construir um mundo justo, limpo, saudável. Então defendo que estudemos na escola como evitar desperdícios, como viver para que o mundo seja menos imundo do que tem sido. Portanto, defendo que devemos aprender na escola a usar folhas de papel dos dois lados, a usar os equipamentos enquanto estiverem funcionando, a consertar o que estiver com defeito e, quando não for mais útil para alguma tarefa, que seja utilizado em outra.

Devemos aprender sobre informática, muito antes de planilhas e editores, a encontrar outros seres humanos pela rede, perceber que somos diferentes e que nossas diferenças podem nos fazer, a todos e a cada um, mais ricos. Que são as diferenças que nos permitirão aprender mais uns com os outros.

Avalio que devemos aprender, com a informática, que quem está do outro lado do mundo, com crenças e culturas diversas das nossas, é nosso companheiro na viagem que fazendo dando voltas e voltas em torno do Sol e que, se a tecnologia servir para que aprendamos a respeitar e aprender com nossas diferenças assim como com as similaridades, teremos chance de viver em um planeta com menos guerras.

Espero que a tecnologia nos ajude a aprender a resolver nossas disputas com argumentos em lugar de socos e tiros. Mas para isso a tecnologia não basta, é preciso que façamos essa escolha antes.

Guia das Cidades Digitais - Crianças de escolas particulares costumam, em grande parte, ter  contato com computadores e outras tecnologias no dia-a-dia, na escola ou fora dela. Com as crianças de escolas públicas isso ocorre em menor grau. Neste sentido, qual deve ser o papel do poder público municipal — em especial, dos projetos de Cidades Digitais — para diminuir essa distância?


Prof. Alberto Tornaghi – As cidades digitais são uma iniciativa interessante de vulgarizar o acessso à Internet. O uso de software livre é outra estratégia fundamental nessa tarefa. Se for necessário gastar somas vultosas de recursos para comprar programas, de nada adiantará ter acesso à rede. Além disso é necessário acesso à tecnologia em si (equipamentos com programas) a custos acessíveis.

O governo federal, através da Secretaria de Educação a Distância do Ministério da Educação (MEC), está empenhado em um programa que prevê a colocação de laboratórios de computadores em todas as escolas públicas do País até 2010. Junto com os computadores chega o sinal da Internet em banda larga (o contrato com as teles prevê que seja fornecido às escolas banda larga com a melhor qualidade e velocidade que estejam comercializando na região) e um programa de formação para os educadores das escolas.

Avalio que este [o Proinfo Integrado] é um programa com chances de êxito neste campo. Veja que não chegam só os computadores para que fiquem encaixotados pelas escolas. Junto chega um programa de formação que habilitará as escolas a trabalhar com eles começando do ponto mais básico (como ligar os computadores) num crescendo paulatino de forma a que os educadores incorporem à sua prática profissional os recursos de que passarão a dispor. Em seguida, sugere-se que pensem e projetem as novas práticas que serão possíveis nas suas escolas a partir do uso dos meios de que passam a dispor. Além disso, os professores serão sistematicamente convidados a publicar em sites desenvolvidos para troca entre eles de suas experiências. Desta forma, mais do que aparelhar as escolas, o programa prevê a formação de uma nova forma de ensinar e aprender: ensinar e aprender em rede.

Desta forma, acredito eu, esta iniciativa estará levando às escolas públicas de todo o País o que há de mais importante e rico, hoje, para se aprender com e/ou sobre tecnologia: aprender a viver e produzir em rede.

Você me pergunta o que podem fazer os municípios e estados. Aí está uma iniciativa objetiva e de baixo custo para o municípios: podem fazer parceria com este programa para que seus professores e alunos integrem rapidamente uma rede de aprendizes e educadores.

Data: 08 de janeiro de 2009
Autor: Maria Eduarda Mattar

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