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Plano Ceibal, do Uruguai, chega a todos os alunos e professores

Iniciativa de dar um computador a cada aluno e docente do país sul-americano completa quatro anos com êxitos

No início de 2007, 150 alunos da escola Villa Cardal, no departamento de Florida, no Uruguai, recebiam laptops do plano “Conectividade Educativa de Informática Básica para o Aprendizado em Linha” (Ceibal). Foi a primeira ação da iniciativa lançada no fim de 2006 pelo governo uruguaio com base no projeto “Um computador por aluno” (One Laptop per Child, em inglês), idealizado por Nicholas Negroponte, engenheiro do Massachussets Institute of Technology (MIT). Quatro anos depois, todos os discentes de escolas públicas daquele país possuem computadores portáteis. A distribuição também chegou aos professores e a iniciativa começa a ser vista como um caso de sucesso educacional.

O programa aumentou a frequência dos alunos nas escolas, o acesso à internet e a computadores, diminuiu a exclusão digital também dos adultos e tem contribuído para melhora na educação infanto-juvenil.

“Devemos ver o Ceibal como o centro de um sistema planetário, com três órbitas principais e equidistantes do centro, que são a igualdade, a aprendizagem e a tecnologia”, afirmou Miguel Brechner, diretor da iniciativa, em artigo de maio deste ano. A combinação desses três elementos permite ao Estado oferecer igualdade de oportunidades, desenvolver novas ferramentas para o aprendizado e o ensino e estabelecer uma nova relação da sociedade com a tecnologia, já que o país começa a estar totalmente conectado”.

“Devido a suas características, não tem precedentes em nível internacional”, corrobora um estudo da Faculdade de Ciências Sociais de Montevidéu. A pesquisa, feita a partir de dados colhidos em 2009, mas divulgada este ano, mostra que o plano foi uma forma de universalizar as novas tecnologias de comunicação e informação no Uruguai. 

Ao longo dos anos, foram distribuídos 420 mil computadores com configuração básica, o XO. Idealizado por Negroponte com preço de US$ 100, no Uruguai cada unidade saiu por US$ 260. As máquinas possuem longa duração de bateria (programada para durar dias, no lugar de horas, graças à baixa capacidade de processamento, de 433 MHz), armazenamento em flash, acesso wi-fi à internet e memória RAM de 256 MB. O sistema operacional é baseado em Linux e há programas de redação, visualização de imagens e vídeos, todos construídos em código livre.

Alunos e professores podem levar os laptops para casa. O conteúdo, no entanto, não é livre. Alguns jogos e sites são bloqueados pelo sistema, que pede senha de acesso. O objetivo, de acordo com o governo, é estimular o uso educativo, voltado para o desenvolvimento cognitivo das crianças. 

Conexão

A ideia do programa é utilizar a internet para as atividades educacionais, uma vez que a capacidade de armazenamento e processamento das máquinas é baixa. Por isso, atualmente, todas as escolas públicas do Uruguai possuem conexão à rede mundial de computadores. 

O programa também abre o sinal das escolas à população em geral. Assim, num raio de 300 metros de cada colégio, é possível navegar livremente na internet. Só nos departamentos (o equivalente uruguaio a estados) de Montevideu e Canelones, onde vivem 60% da população, há cerca de 270 hotspots do Ceibal à disposição. 

Os que possuem computadores do Ceibal em casa utilizam mais a rede mundial de computadores nas escolas e nos centros públicos de acesso, enquanto os que não possuem preferem as lan houses. O primeiro grupo declara usar mais a máquina e a internet para atividades educacionais do que o segundo, principalmente nos 20% mais pobres.

O programa também erradicou a exclusão digital nas escolas. Os índices de acesso à internet em instuições públicas e privadas de ensino, hoje, são praticamente idênticos. Segundo o estudo universitário, o programa possibilita até a inversão do quadro. Os alunos das escolas públicas costumam acessar mais a internet do que seus colegas estudantes de instituições privadas.

De acordo com a pesquisa, o Plano Ceibal mudou a forma de a população mais pobre do país se relacionar com computadores e a internet. As crianças e adolescentes utilizam o computador pessoal, em média, uma hora e meia por dia, com jogos educativos, pesquisas escolares e fotografias. O uso teria gerado uma melhoria, ainda não totalmente comprovada, do desempenho escolar. 

“Se há evidências de que meninos e meninas melhoraram seu aprendizado com o uso do XO, não se pode dizer que este seja o único fator”, afirma Ana Rivoir, pesquisadora da Faculdade de Ciências Sociais de Montevideu e líder da pesquisa sobre o desenvolvimento do Plano Ceibal. “Um elemento importante é que a maioria tem, agora, mais acesso a informação melhor e mais variada, o que com certeza contribui para a formação e o aprendizado. Descobrimos, por exemplo, que [os usuários] escrevem e leem mais e que crianças com deficiências aprenderam a ler e a escrever graças ao XO, mas não se pode generalizar. A melhora das aprendizagens depende de um conjunto variado de fatores dentro do qual a tecnologia é um a mais”, complementa.

Apesar da ressalva feita por Rivoir, o programa tem agradado em cheio à população. De acordo com o “Perfil do Internauta Uruguaio”, pesquisa divulgada pela consultoria Radar no ano passado, 84% dos uruguaios aprovam a iniciativa governamental.

Organização

Uma das explicações dadas por especialistas para o sucesso do programa é sua organização, apoiada pelo governo e pela sociedade civil. A implementação do plano ficou a cargo do Laboratório Tecnológico do Uruguai (Latu), que liderou a comissão política encarregada de traçar as diretrizes do programa. Ela conta com representantes do Conselho Diretor Central (Codicen), do Conselho de Educação Primária (Cep/Anep), da Administração Nacional das Telecomunicações (Antel), do Ministério da Educação e Cultura, da Agência para o Governo da Gestão Eletrônica e da Sociedade da Informação e do Conhecimento (Agesic) e da Agência Nacional da Inovação e da Pesquisa (Anii). 

Em 2010, a execução do programa passou para o Centro Ceibal, órgão público criado especialmente para esse fim e dirigido por representantes governamentais.

Além da participação governamental, o plano teve envolvimento de universidades e organizações não governamentais em sua implementação. Algumas instituições, como a Universidade da República, de Montevideu, criaram programas de apoio e estudo sobre iniciativa governamental. A Rede de Apoio ao Plano Ceibal (RapCeibal) , integrada por 600 voluntários, já realizou oficinas para melhorar o uso das tecnologias por alunos e professores, além de colaborar com a distribuição das máquinas –32% dos adultos dizem não saber usar computadores.

Outro programa, o “Ceibal famílias”, da Universidade Católica, capacita os pais dos alunos a utilizar as “ceibalitas”, como são apelidadas as máquinas doadas pelo governo. “O objetivo final é encontrar espaços comuns entre pais e filhos de escolas públicas públicas dos bairros próximos à universidade e, por meio do conhecimento e do uso da informática, melhorar a qualidade das relações familiares”, explica Marianela Fernández, professora da instituição uruguaia. 

Participam da iniciativa docentes e estudantes das escolas de engenharia, comunicação, educação, ciências empresariais e psicologia. Com aulas de uma hora e meia, os pais podem aprender a manusear as máquinas e foram apresentados a alguns usos básicos, porém úteis, como processadores de textos, gravações de fotos, etc.

Segundo outra pesquisa, feita pela Latu e pela Anep, além de obter conhecimento de organizações sociais e universidades, os adultos também aprendem com as crianças. Os dados mostram que 87% dos alunos de escolas públicas ensinam seus familiares a utilizar computadores de alguma forma. O principal uso é o entretenimento (55%), seguido pelas buscas por informações em geral e a relacionada a estudos (38%).

Desafios

Apesar dos indicadores positivos, o Ceibal, às vésperas de completar cinco anos, enfrenta desafios. Segundo números do próprio governo, 15% das máquinas já apresentou defeito e a substituição é lenta, o que prejudica o aprendizado dos alunos. Segundo Fiorella Haim, gerente de operações do plano governamental, o índice é normal para um produto utilizado por crianças. Há um programa auxiliar, o “Ceibal Móvel”, que percorre escolas para consertar máquinas em Montevideu. No interior, porém, a troca é feita pelo correio, o que gera demoras.

Além disso, educadores e organizações da sociedade civil pressionam por melhorias na metodologia de ensino e nas condições das salas de aula. “O Ceibal poderia ser utilizado para fins de saúde, governo eletrônico, produtivo, etc, por parte dos adultos, mas para isso é necessária uma articulação com com outras políticas, inclusive as sociais. Fundamentalmente, é importante que os setores mais vulneráveis da população recebam apoios institucionais para atingirem tais efeitos”, resume Ana Rivoir, da FCS.

Data: 10 de agosto de 2011
Autor: Marcelo Medeiros

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