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'Tecnologia não fará ideias ruins se tornarem boas'
Alessandro Aurigi, professor da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, e um dos maiores especialistas em Cidades Digitais do mundo, critica a crença na tecnologia como solução para os problemas. Para ele, o que contam são as boas ideias, sobretudo quando inovadoras
Crítico do conceito de Cidade Digital, o italiano Alessando Aurigi, professor da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, acredita que o termo deve ser mais elaborado e mais atenção precisa ser direcionada para os processos criativos que utilizam a tecnologia. Para ele, a tecnologia deve ser sempre vista como um meio e não como um fim, como frequentemente acontece. Isso porque, de acordo com o teórico, que concedeu entrevista ao Guia das Cidades Digitais por email, as novidades do mercado não transformam uma cidade por si só. Elas apenas respondem ao uso feito. Por isso, garante, “uma má administração [sem tecnologia] será uma má administração digital.”
Nesta entrevista, Aurigi, que está no Brasil para participar do seminário “Cidades Inovadoras”, que acontece em Curitiba de 17 a 20 de maio, ressalta a necessidade de contextualização das tecnologias e expõe seu ponto de vista sobre o uso de TICs na administração pública e aponta a solução para os problemas de governança nas cidades: “se eu estivesse em um governo, me concentraria em promover a alfabetização digital e capacidades (incluindo assistência, uso de hardware, software e conexão) com jovens e em desenvolver políticas que os encorajem a repassar o aprendizado a suas famílias. ”
Guia das Cidades Digitais – Você tem escrito artigos e livros sobre cidades digitais. Como as descreveria?
Alessando Aurigi – “Cidade digital” é apenas um termo da moda, como muitos outros, e tem sido usado com significados bem diferentes em circunstâncias distintas. As cidades –em geral – já são digitais à medida que mais cidadãos utilizam tecnologias, aparelhos e serviços digitais. Então por que olhar para isso e até mesmo escrever livros? Bem, porque tanto podemos deixar para lá quanto tentar planejar uma cidade que incorpore e explore essas tecnologias. É isto que me interessa. Na verdade, o que realmente me interessa é o conceito de “espaço urbano aumentado”, que é como concebemos e desenhamos o espaço urbano como uma combinação entre o físico e o digital.
GCD – Você costuma dizer que, apesar de as tecnologias continuarem a ser desenvolvidas, o que as torna importantes é seu uso social, que difere de lugar para lugar. É possível estabelecer “boas práticas” no uso de TICs para fortalecer a administração pública?
Aurigi – Sim e não. É importante começar a olhar para valores e princípios que possam levar a desenvolvimentos. Mas é complicado e potencialmente bastante perigoso “emprestar” boas práticas de diferentes contextos como elas são, implementá-las e esperar que sejam exatamente o que você precisa. Qualquer designer médio sabe que ser insensível ao contexto (físico, socioeconômico, político, cultural) é a maior fonte de problemas existente e reduz bastante a efetividade de qualquer desenho.
GCD – Quão importante para uma cidade é ser digital? Uma administração analógica é necessariamente pior do que uma conectada?
Aurigi – Um dos erros mais comuns e perversos que podem ser cometidos é associar sucesso, progresso e benefícios com a simples implementação de qualquer tecnologia. Atitudes tecnocráticas resultam em uma fé injustificada no fato de que a tecnologia “vai consertar”, mas isso não costuma acontecer. Uma má administração [sem tecnologia] será uma má administração digital.
A tecnologia não fará ideias ruins se tornarem boas, logo, o ponto de partida deve ser sempre boas ideias e não simplesmente renovar digitalmente o que já está lá. Aliás, se o “digital” for aplicado a antigos paradigmas, pode até criar grandes problemas. Casos de burocratas respondendo a emails “em duas semanas” (como era a norma para o correio normal) não são tão incomuns – e criaram grandes mal entendidos.
Porém, é importante para as autoridades locais e tomadores de decisão entender e reconhecer que as pessoas vão se comunicar de forma diferente e que os estilos de vida estão mudando. Logo, acompanhar essas evoluções é um requisito mínimo. Mas sem boas ideias, nenhum progresso ou inovação pode ser alcançado.
GCD – É possível comparar as cidades digitais brasileiras a outras na Europa e nos EUA? Estamos atrás em algo?
Aurigi – Isso poderei dizer mais tarde [Augiri está no Brasil esta semana, de 17 a 20 de maio], mas diria que a forma como vocês usam o termo “cidade digital” parece ser uma simples reformulação do que chamo de “governo eletrônico”, o que considero redutiva e pouco interessante. Não sou um burocrata e não estou interessado em certificações eletrônicas, pagamentos eletrônicos de estacionamentos ou taxas governamentais.
Como disse na resposta anterior, essas coisas, para mim, são “normais”. Elas mudarão muito pouco, apesar de serem necessárias para acompanhar uma sociedade mutante. Na minha opinião, é uma abordagem “mínimo denominador comum” que não muda a cidade tanto assim.
GCD – As cidades modernas são mais e mais fragmentadas e, em muitos países, os cidadãos se relacionam pouco. A tecnologia pode reforçar essa tendência?
Aurigi – Em primeiro lugar, acho que a ideia de todos os cidadãos serem participantes e vivendo em harmonia é uma construção romântica que provavelmente nunca existiu na vida real. Muitas vezes, aqueles que podem arcar com isso vivenciaram um grau de separação muitos anos atrás. Aqueles que não podem arcar com esses custos é que são “forçados” a coabitar. Acredito que as suas favelas são um exemplo interessante disso.
A tecnologia pode funcionar de formas bastante diferentes. Pode reforçar a separação ao permitir às pessoas fazer mais e mais coisas sem precisar se misturar com quem não gostam ou ir aonde não querem. Em outras palavras, pode eliminar encontros por acaso e inesperados.
Mas também pode aproximar as pessoas. Acredito que algo que pode fazer diferença é... o espaço físico. Quero dizer que a implementação de altas tecnologias que encorajem a independência de restrições espaciais e permitem ação global podem ser facilmente “canalizadas” para reforçar a separação, enquanto aquelas cuja missão é territorializada pode aumentar a visibilidade mútua, o entendimento e o diálogo. Não quero generalizar, entretanto. A questão é de design de escolhas e quando digo “design” também quero dizer as políticas que o envolvem.
GCD – As TICs podem encurtar distâncias, mas os governos estão prontos para ficar mais próximos dos cidadãos?
Aurigi – Isso você precisa perguntar aos governos. O que posso dizer é que a tendência dos últimos 15 anos – como tenho observado – tem privilegiado visões arriscadas de “serviços melhorados” e menos controvérsias no lugar de melhorar a governança.
GCD – Um dos problemas dos países em desenvolvimento é o acesso à internet. Como um governo deve lidar com isso para obter uma ligação verdadeira com seus cidadãos?
Aurigi – Acredito que o problema é mais com a cultura, a educação e a alfabetização digital do que puramente acesso “econômico”. Tenho certeza que o acesso econômico é um problema, mas garantir que as pessoas – mesmo as de baixa renda – podem enxergar benefícios e ter “lucro” com essas tecnologias, na minha opinião, é o passo mais fundamental.
Muitas experiências mundo afora com comunidades desfavorecidas parecem indicar que a chave para a tomada dessas tecnologias são as crianças. Elas são muito mais propensas –possivelmente na escola – a se interessarem e serem ativas e elas podem espalhar a noção de certos benefícios a suas famílias.
Logo, se eu estivesse em um governo, me concentraria em promover a alfabetização digital e capacidades (incluindo assistência, uso de hardware, software e conexão) com jovens e em desenvolver políticas que os encorajem a repassar o aprendizado a suas famílias. Outro aspecto que gostaria de olhar é o emprego e as formas “digitais” de melhorar a capacidade das pessoas de desempenharem suas tarefas. Acredito que as pessoas poderiam se concentrar mais nisso do que em promessas de participação. Isso pode ser feito em comunidades de baixa renda por meio do estabelecimento de centros digitais comunitários ou algo nessa linha. Mas é difícil dar sugestões gerais, já que acredito bastante na necessidade de estar a par do contexto para fazer propostas.
Data: 18 de maio de 2011
Autor: Marcelo Medeiros