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Orla Digital e Rio Digital entram em operação em agosto

O Rio de Janeiro, desde o ano passado, promete tornar-se o primeiro estado digital do Brasil. Inicialmente coordenada pelo Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj), a iniciativa sofreu alterações de estratégia e coordenação, mas continua com o mesmo propósito. O Guia das Cidades Digitais entrevistou o subsecretário de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Júlio Lagun Filho, durante o Digital Cities 2008 para saber em que estágio se encontra o projeto e o que as cidades fluminenses podem esperar. “A primeira etapa estará operacional em agosto”, garante o subsecretário. Lagun conta quais parcerias vêm sendo firmadas, esclarece as funções de diferentes órgãos e profissionais envolvidos e propõe uma reflexão: “As funções que as cidades vão adquirir serão diferentes, o paradigma vai mudar”.

Primeiro foi o Orla Digital, beneficiando inicialmente a orla de Copacabana, depois o Baixada Digital, envolvendo 11 cidades da Baixada Fluminense. Qual vai ser a próxima região do estado do Rio a ter um projeto de Cidade Digital?

São dois projetos, o Orla Digital e o Rio Digital. O Orla Digital é uma etapa do projeto que vai abranger todo o município do Rio de Janeiro. A cidade tem uma topologia muito mais complexa, é um problema em especial. O segundo é para o interior estado, que começou com o Baixada Digital. Este abarca 11 municípios de uma região. Para atender o estado todo, faremos o projeto em 12 regiões.

Já está planejada a próxima região? Como está o cronograma dos que já estão em andamento?

Não. Este primeiro projeto [Baixada] está sendo piloto, para avaliar dificuldades, os tempos que a gente leva. Muito menos por causa de recursos, e mais pelo cuidado para ver como o projeto pode ser implementado com segurança e estabilidade, para não haver açodamento.

Tanto o Orla Digital, quanto o Baixada devem estar operacionais em agosto. A partir daí é que faremos o cronograma para os restantes.

O professor Franklin Coelho esteve à frente do projeto de Piraí Digital, um sucesso internacional, e está à frente também do Baixada Fluminense. Isto significa que o professor também será o coordenador de outros projetos no estado? Ou isto será decidido caso a caso?

Há cidades, cidades e cidades. Cada lugar tem diferenças. Então não necessariamente iremos utilizar a mesma estratégia em todos. Fizemos dois contratos diferentes: um com a Associação Estadual de Municípios – RJ (Aemerj), pois entendemos que o projeto, antes de tecnológico, é certamente político, no sentido de ter que ter a participação e colaboração de todos. Por isso, a Aemerj representa essa aliança com os governos locais. No município do Rio, é só um governo local, porém, o projeto tem uma sofisticação maior. Por isso, estabelecemos uma parceria com a Coppe/UFRJ, o instituto de pós-graduação e pesquisa de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

No caso do Baixada Digital, ao fazer a parceria com a Aemerj, naturalmente aproveitamos a experiência daqueles que desenvolveram Piraí Digital – que foi uma das primeiras experiências no campo e que havia sido feita em parceria com a associação estadual -, que são os pesquisadores Franklin Coelho e Maria Helena Jardim. Então eles são os parceiros, contratados pela Aemerj, para desenvolver o programa no interior do estado.

A Coppe é a parceira para o município do Rio de Janeiro, onde também estamos trabalhando em conjunto com o Instituto Pereira Passos (IPP) e com a Empresa Municipal de Informática S/A (IplanRio).

A tendência é que a mesma equipe que vai implantar o projeto na Baixada seja também a responsável pelas outras regiões. Talvez só precisemos aumentá-la.

Já que mencionou a Coppe/UFRJ, qual o papel das universidades públicas do Rio de Janeiro nesse processo todo?

Os próprios Franklin Coelho e Maria Helena são pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da UFRJ. Então por trás deles há toda a estrutura e apoio das universidades. No Orla Digital, por intermédio dos pesquisadores da Coppe, a UFRJ participa oficialmente.

A UFF não é parte convenial no Baixada, mas é parte integrante de um esforço que o secretário Alexandre Cardoso [de Ciência e Tecnologia] tem feito para reunir as forças mais expressivas do Estado sempre que ele precisa caminhar em direção a um certo empreendimento. No Rio, a gente percebe que existe uma certa tradição de trabalhos isolados, cada um no seu canto. Um grande esforço do secretário tem sido para juntar partes em objetivos comuns.

Qual é/será o papel do Proderj nos projetos para o Estado do Rio? O órgão vinha coordenando o projeto Um Rio Digital. De que forma isso se encaixa nessa nova estatrégia do governo estadual?

O que existia, na verdade, era uma discussão sobre a melhor estratégia para desenvolver projetos desse tipo. O Proderj, junto com a Casa Civil, estava explorando uma linha, que era das Parcerias Público-Privadas (PPP), que foi amplamente divulgada. Num dado momento, o governador, o próprio Proderj, a Casa Civil, etc. fizeram uma avaliação e decidiram que era mais interessante mudar um pouco de rumo e adotar uma estratégia que oferecesse resultados mais em curto prazo. Pois projetos que envolvem PPP são de longa discussão. Corretos, mas de muito longa discussão.

Enquanto que a estratégia que se adotou, partindo da premissa de que o secretário Alexandre conseguiu os recursos necessários, foi criar os fatos consumados, os primeiros projetos, as primeiras realidades. Traçando um paralelo: se você tem uma empresa e tem recursos, você a prepara, lança no mercado, faz dela um certo sucesso e depois negocia. Você vai ganhar muito mais. Então é mais ou menos a mesma coisa. Temos recursos para implementar esses primeiros módulos e fazer deles um sucesso. Em paralelo, vamos avaliar com a sociedade a forma de organização, como vai ser a gestão, como é o modelo de participação. Então, invertemos a ordem das coisas, na medida em que conseguimos recursos.

Além disso, o Proderj tem a missão institucional de ser o Centro de Processamento de Dados da Administração Pública, o que ele continua sendo. Algumas funções que estavam atribuídas a ele supletivamente passaram à Ciência e Tecnologia, porque mudou a estratégia. Assim como já está definido que a gestão dessa rede [que vai interligar os diferentes municípios] será feita pela Rede Rio [rede de computadores, integrada por universidades e centros de pesquisa localizados no Estado], que fica mais distante dessas oscilações de governo e tem uma sustentação acadêmica muito forte. Ou seja, ficará eqüidistante de todos os agentes, o que vai permitir que, no futuro, a gestão seja mais democrática.

Já há um modelo para gerir a rede?

Estamos pensando, mas não vai fugir muito do que tem sido feito por aí, nos municípios que têm casos de sucesso, pois não há roda para inventar. Mas já estamos trazendo parcerias.

Vocês pensam em estabelecer ou permitir acesso gratuito nos domicílios em certas cidades?

O problema aí é que diz respeito à última milha, etapa em que não estamos trabalhando. O que percebemos, por testes, é que em certos casos, onde tiver hotspots projetando sinal sem fio, as pessoas conseguirão acessar em suas residências, pois não haverá senha para a rede. Mas isso não é uma regra geral. Pode haver casos em que as pessoas acharão que podem captar, transmitir por cabo e usar. Porém, isso vai depender da política de uso que a gente vai progressivamente construir.

Uma coisa é ter a infra-estrutura de rede, outra é fazer com que ela seja bem utilizada. Que tipos de iniciativas estão sendo programadas para que a rede não fique ociosa ou para que os usuários não sejam meros receptores de informação?

A rede é projetada para ser interativa. Nosso medo não é que fique ociosa, mas sim entupida. Essa sintonia é muito delicada, por isso temos que ter um processo muito cauteloso e estabelecer a rede com hierarquia.

Mas e quanto a conteúdo? O governo do estado também irá contribuir com a oferta ou a sugestão de softwares a serem utilizados pelas diferentes áreas dos governos municipais, como administração interna, saúde, educação, turismo, etc. Ou isto ficará inteiramente a cargo de cada município?

A rede tem um gradiente de clientes. O primeiro é o cidadão, para o qual ela deve ter uma cobertura a céu aberto, de caráter inclusivo, no sentido de oferecer acesso.

Na segunda instância, ela tem que poder dar cobertura a funções públicas essenciais consideradas estratégicas no plano do governo do Estado, que são três: saúde, educação e segurança. Nessas três funções, vamos criar editais e trabalhar junto com a Aemerj para ver quais as principais aplicações necessárias e como podemos subsidiar o desenvolvimento delas, tentando atender a todo mundo. Não vamos padronizar, mas pelo menos poder ter uma oferta de programas. Nada impede, claro, que os municípios tenham suas próprias aplicações. Para prover esse tipo de conteúdo para a área pública, estamos trabalhando em parceria com a Associação das Empresas Brasileiras de Software e Serviços de Informática (Assespro) e o Sindicato das Empresas de Informática (Seprorj).

Para a parte privada, o parceiro é o Sebrae. E temos um tipo de modelo de apoio, não só de consultoria, mas também de software e cobertura de rede para ajudar na modernização das micro e pequenas empresas.

Resumindo, existe o seguinte: primeiro, o cidadão; segundo, as funções essenciais estratégicas de governo para a população; terceiro, a área empresarial, do micro para o médio empresário, e assim por diante. A gente vai tentar desenvolver esse universo com as unidades representativas.

E quanto a conteúdos que valorizem cultura local, características da cidade, etc.?

O grande problema que eu vejo é a possível reprodução do que aconteceu nos anos 60, 70 com a introdução da informática. De um lado há a tecnologia; de outro, a cidade. A cidade é uma construção. Que cidade é essa que vai emergir? De que cidade estamos falando? O Brasil tem uma dicotomia entre campo e cidade, diferente do que acontece na China, por exemplo. Aqui não há continuidade entre a vila e a cidade.

Aqui dizemos "Cidade Digital do Rio de Janeiro", "Cidade Digital de Sud Mennucci". Nada tem a ver com nada. As funções que as cidades vão adquirir serão diferentes, o paradigma vai mudar. Não adianta botar rede em cima de velho paradigma. Tem que pensar qual é o paradigma. Isso faz parte do nosso projeto em paralelo. Não só colocar infra-estrutura, mas também colocar e promover a discussão desses novos paradigmas. O enfoque de governo não pode ser tecnocrático. Tem que se embasar em tecnologia, mas ser social.

Data: 23 de abril de 2008
Autor: Maria Eduarda Mattar

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