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O telecentro virtual e o lado da demanda do desemprego

Ismael Peña-López, professor da Universidade Aberta da Catalunha e especialista em TICs para o desenvolvimento, propõe uma mudança na forma de encarar os telecentros, o que ajudaria a combater o desemprego. Para ele, pequenas empresas poderiam abrigar locais comunitários, os telecentros virtuais, que funcionariam como espaços de inovação para as companhias e de qualificação dos trabalhadores

Durante a oficina da Comissão Europeia para Especialistas sobre Mensuração do Impacto de Intermediários de e-inclusão na Europa, fui convidado a fazer uma apresentação chamada “eInclusion Intermediaries in Europe: horizon 2020” (Intermediários de E-Inclusão na Europa: horizonte de 2020).

Meu diagnóstico do desenvolvimento da Sociedade da Informação e do estado da exclusão digital na maioria dos países desenvolvidos foi o seguinte:

 

  • Assuntos da última milha prestes a serem resolvidos
  • Acesso físico a infraestruturas geralmente não são uma barreira
  • Crescente oferta de conteúdos e serviços
  • Necessidade de avançadas habilidades (digitais)
  • Quantidade estável de pessoas não dispostas a colaborar (refuseniks)

 

Obviamente, é falso dizer que todos os outros problemas já estão resolvidos, mas eles estão caindo rapidamente no campo de “assuntos operacionais” mais do que no de “políticas estratégicas”.

Por outro lado, a ONG Telecentre.org identificou, para o Quarto Fórum Global sobre Telecentros, três temas principais para debate:

 

  • Pessoas
  • Inovação
  • Sustentabilidade

 

Para mim, estes são tópicos fortemente interligados: não acho que possa haver sustentabilidade sem o suporte da comunidade e sem inovação; e a inovação só pode acontecer a partir da comunidade e sustentada por uma forte comunidade.

Ou seja, pessoas, inovação e sustentabilidade, mas sem um cenário de mudança – como descrito anteriormente – e em um novo contexto de crise e de desemprego galopante (ao menos na Europa). Portanto, quais poderiam ser os próximos passos para os telecentros contribuírem para o desenvolvimento, a inclusão social e a empregabilidade?

Transformando telecentros

Acredito que há duas formas de transformar os telecentros ou fazê-los se desenvolver: mudar o que fazem (e como fazem) e alterar como as coisas são.

Em relação à primeira, o diretor da Fundação CTIC, Paco Prieto, fornece propostas bastante interessantes relacionadas à sustentabilidade e às pessoas (ou à comunidade). Em relação à sustentabilidade, ele defende um modelo de telecentro baseado no conceito de BYOD (bring your own device – traga seu próprio equipamento): ou seja, um telecentro sem máquinas (só com conexão), onde todos são livres para usar seu próprio dispositivo. 

Isso não apenas é mais sustentável (claro), mas também fortalece o uso comunitário, pois livra a maioria dos telecentros do cheiro de sala de aula, tornando-os, em vez disso, um local informal, uma grande sala de estar.

Este fator comunitário pode ser ainda mais fortalecido ao “inverter o telecentro”, ao evitar o uso dos telecentros como sala de palestras, transformando monitores em facilitadores de compartilhamento de conhecimento.

São duas ideias com as quais concordo totalmente e que vão bastante ao encontro da noção de tornar os telecentros centros comunitários ‘empoderados’ pelas tecnologias da informação e da comunicação (TICs), ideia que está no centro da proposta de qualificação profissional dos monitores. O tema principal é que os telecentros devem ser mais centrados na comunidade, duplicando-se (ou sendo embutidos) no papel de centros cívicos e escolas e sendo utilizados como laboratórios vivos por empreendedores. Mas é certo que podemos ir adiante.

O telecentro virtual

Tendemos a pensar telecentros literalmente como locais e não em suas funções ou papéis. Vamos pensar nos papéis e funções dos telecentros: o principal papel do telecentro é permitir acesso público à Sociedade da Informação.

Acessar a Sociedade da Informação costumava significar ter acesso às infraestruturas de TICs. Porém, estudos mostram que o acesso é uma questão de habilidades e, ainda, de dinheiro. Por que não, então, oferecer habilidades a preço baixo?

Por outro lado, sabemos que enquanto as pessoas estão cada vez mais confiantes no uso das TICs e as utilizam em sua vida cotidiana, as instituições geralmente não possuem a noção de uso eficiente e efetivo dessas tecnologias. Em outras palavras: apesar de os indivíduos serem capazes de usar as tecnologias, este uso não se traduz em utilização institucional.

Sugiro que é hora de desenvolver uma nova modalidade de telecentro: a virtual. O telecentro virtual é alocado em uma organização e, além da tradicional área de TI,

 

  • tem funções e papéis de um telecentro tradicional, ou seja, prover acesso a preço bastante baixo (ou mesmo de graça, por meio de subsídios)
  • também como um telecentro tradicional, o virtual opera em uma rede de telecentros virtuais, que compartilham entre elas estratégias e recursos
  • o telecentro virtual tem facilidades para, a seu tempo, terceirizar muito de sua administração (para a rede ou à organização hospedeira), logo podendo se concentrar em suas tarefas e metas específicas.

 

Obviamente, esta de fato seria uma parceira público-privada que melhoraria o alcance de beneficiários de políticas de acesso público à internet e a sustentabilidade do sistema como um todo: sendo alocado, há uma grande possibilidade de prover serviços de graça (subsidiados) e outros com lucro.

Mas por que um telecentro virtual?

O lado da demanda do desemprego

A maioria das políticas (todas as políticas, não só as ‘e-políticas’) contra o desemprego é voltada para o lado da oferta do mercado de trabalho: o trabalhador ou o desempregado: treinamento, melhora da empregabilidade, novas habilidades, novas competências, como se candidatar a uma vaga, como escrever melhor e distribuir seu currículo. E os telecentros estão contribuindo bem para essa tarefa. Estou OK com isso, mas é apenas metade da história.

Há uma crescente evidência de que as pequenas e médias empresas são menos competitivas do que as grandes, e parte dessa falta de competitividade deve-se à ausência de conhecimento ou treinamento em gestão de seus tomadores de decisão. Um corolário da assertiva anterior é que, devido à falta de conhecimento, também não se sabe como aplicar as TICs em suas funções produtivas. 

Em outras palavras, elas não conhecem as ferramentas e os benefícios do comércio eletrônico, do e-business, da computação em nuvem, das mídias sociais, de sistemas integrados de gestão empresarial (ERPs), gestão de relacionamento com clientes (CRMs), teletrabalho e trabalho em rede, entre outros.

Fato é que esses tomadores de decisão raramente visitam telecentros. Na melhor das hipóteses, vão a um curso específico sobre um tema dado. Mas a maioria deles não procurará ajuda em telecentros e não pode pagar por consultoria profissional.

É aqui que o telecentro virtual faz sentido: ao alocá-lo, consultas e facilitações não ficam fora da firma, mas dentro, ou seja, a seu alcance. E por ser um telecentro – e não uma empresa externa, em busca de lucro – essas consultas e facilitações são acessíveis a PMEs.

O telecentro virtual pode se tornar um cavalo de troia útil para a luta contra a exclusão digital de dentro das empresas e, a partir daí, para contribuir para a luta contra o desemprego ao ajudar especialmente as PMEs a fazer melhor uso das TICs em termos de melhor organização, produtividade e competitividade.

Tradução e edição: Marcelo Medeiros

O artigo foi publicado originalmente na página do professor Ismael Peña-López, neste link.

 

Data: 03 de abril de 2013

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