No Orla Digital, charme e inovação tecnológica
Quando entrou em operação, no último dia 22 de julho, o Orla Digital trouxe mais do que o charme de proporcionar conexão wi-fi à beira do mar de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ele concretizou um dos projetos pioneiros de redes Mesh de acesso livre e de tão grande porte no País. Quando estiver plenamente implementado − atualmente só a primeira fase foi inaugurada, cobrindo cerca de um terço do total previsto −, o projeto terá 22 rádios emitindo sinal wi-fi para os 4,5 quilômetros da "princesinha do mar". A banda para o usuário final é de 6,5 Mbps.
"Não há muitas redes Mesh no mercado brasileiro, elas ainda são experimentais. Porém, trazem vantagens interessantes para os governos", avalia Enzo Moliterno, diretor de Canais da Motorola, empresa que forneceu os rádios (MotoMesh) para a rede do Orla Digital, escolhida dentre um total de 10 propostas. A rede ao longo de Copacabana opera em duas freqüências: 2,5 GHz − ou seja, padrão Wi-Fi − para emissão do sinal que chega ao usuário final; e 5,8 GHz − freqüência reservada para o padrão WiMax − para a comunicação entre os próprios rádios, que se interalimentam.
A escolha da tecnologia Mesh teve benefícios como total controle sobre a rede e facilidade de expansão. Esse tipo de rede, uma vez implantado, não depende de operadora (como acontecerá com as redes WiMax, tão logo essa tecnologia esteja a pleno vapor), portanto, não tem conta no final do mês. "O retorno sobre o investimento é muito maior quando se investe em rede própria, pois a operação fica mais direta, eliminando um dos custos mais elevados, que é o das operadoras. O custo de manutenção da rede Mesh tende a ser inferior ao custo de bilhetagem das operadoras de Wimax", avalia Moliterno. Do outro lado da balança está a necessidade de contratar provedor, sustentar essa rede, operar a manutenção física, de segurança, etc., ou seja, manter a rede funcionando em bom estado.
No caso do governo fluminense, como ele já dispõe da Rede Rio de Computadores, que interliga os órgãos do governo do Estado, o sinal de internet já estava disponível e não foi necessário, portanto, comprar banda internet de um provedor. "Conhecidos o propósito e a abrangência do sistema, nossa engenharia elaborou projeto básico que, após diversas rodadas de discussões técnicas com o cliente, resultou no desenho final da rede", relata Newton Luiz de Ataíde Trindade, diretor da Mibra Engenharia, empresa responsável por montar e executar o projeto técnico, contratada pela Coppe/UFRJ.
Já a facilidade de expansão poderá fazer com que, facilmente, a rede wireless chegue a bairros e praias vizinhas, como Ipanema, Botafogo, Urca, etc., caso demande o desenrolar do projeto estadual. Bastaria adquirir e instalar rádios semelhantes.
O Orla Digital se destaca das demais iniciativas Mesh, como as de Petrópolis (RJ) e Porto Alegre (RS), em função do seu potencial de abrangência: segundo anunciou o governo do Estado, é atender 100 mil pessoas, em um bairro altamente turístico e com grande confluência de pessoas, especialmente nos finais de semana. Além disso, o que os técnicos da Coppe estão planejando para a rede, como aplicações de vídeo e interações possíveis entre vários pequenos aparelhos que têm acesso à Internet, podem criar usos até então impensáveis para redes desse tipo.
Um exemplo interessante de uso, já comentado pelo professor da Coppe, Luis Felipe Magalhães de Moraes, um dos dois responsáveis técnicos pelo Orla Digital, é a possibilidade de monitorar batimentos cardíacos dos idosos que caminham na praia de Copacabana. Outro, mais óbvio, é o monitoramento mais abrangente ao longo da Orla, até para garantir as condições de segurança para as pessoas se sentirem confortáveis para utilizar o computador ao ar livre.
"Sem dúvida o grande legado dessa implantação foi aprofundar o conhecimento relativo à tecnologia de redes Mesh", acredita o diretor da Mibra. Enzo Moliterno, da Motorola, concorda e vai além: "Este projeto vai servir como laboratório do que pode ser feito com redes Mesh em locais públicos. Não era sequer possível definir todas as aplicações antes de a rede estar operando. Pode-se fazer muita experiência nela, aprender através dela. Tecnologias com tanto impacto dão espaço para mudança de hábitos, geram reações e podem ter conseqüências sociais que ainda desconhecemos", avalia.
Data: 01 de agosto de 2008
Autor: Maria Eduarda Mattar