Por que ser uma Cidade Digital » Iniciativas internacionais » Na Suíça, telemedicina é utilizada para baratear custos de atendimento

Na Suíça, telemedicina é utilizada para baratear custos de atendimento

Estudo feito por pesquisadores suíços aponta vantagens no uso de serviços médicos por telefone e internet no país europeu. Em entrevista ao Guia das Cidades Digitais, a economista da Universidade de Lausanne Chantal Grandchamp, uma das responsáveis pela pesquisa, conta como funciona o sistema.

A Suíça obriga todos seus habitantes a contratar algum tipo de plano de saúde. Os custos variam de acordo com a empresa contratada e muitas delas buscam economias sem deixar a qualidade do atendimento de lado, pois o serviço é bem regulado pelo governo central. Uma das vias encontradas é a informatização dos processos, inclusive do atendimento. A seguradora Winwin, por exemplo, desenvolveu um método cujo objetivo é diminuir o número de consultas de baixa relevância, liberando os médicos para atendimentos mais demorados em casos graves ou que demandem diagnósticos mais elaborados. A metodologia consiste na introdução de atendimentos via telefone ou computador para triar os pacientes que devem ir aos consultórios, pois boa parte dos casos pode ser tratada de forma simples.

A economista Chantal Grandchamp realizou diversos estudos sobre as vantagens e problemas desse sistema de atendimento. Para ela, a longo prazo, há ganhos tanto para os pacientes, que diminuem o tempo na fila dos consultórios, quanto para as operadoras, que diminuem os dispêndios. Segundo Grandchamp, pesquisadora do Instituto de Economia e Administração da Universidade de Lausanne, na Suíça, o processo poderia ser adotado pelo poder público a fim de gerar economia e melhor atendimento. Nesta entrevista, porém, alerta para a necessidade de adaptação do sistema para a realidade de cada país.

Guia das Cidades Digitais – Em um artigo, você descreve as implicações de um recente serviço de telemedicina implementado na Suíça. Como ele funciona?

Chantal Grandchamp – O serviço de telemedicina que descrevemos é feito especificamente para um tipo de plano de saúde. Nele, se o segurado possui uma questão médica ou um novo problema e quer ver um médico, ele primeiro precisa ligar para a central de telemedicina. Primeiro ele falará com um assistente, que lhe fará algumas perguntas médicas após identifica-lo. Um clínico retornará o chamado logo em seguida ou no máximo em uma hora, de acordo com o grau de urgência, para uma teleconsulta.

De acordo com o caso, o médico vai indicar um tratamento, com ou sem receita, que pode ser enviada por computador à farmácia, ou uma consulta “real” com o tipo de profissional que ele precisa ver (um clínico geral, um especialista, emergência, hospital) e em quanto tempo. No caso de ser necessário ir a um pronto-socorro, o assistente ou o médico podem acionar diretamente (por telefone ou internet) a unidade para que ela se prepare.

Se o problema não for novo e o paciente foi indicado a um especialista, ele precisa ligar para a central de atendimento novamente para informar a visita, por razões administrativas.

A escolha do médico é livre, e o paciente não é obrigado a seguir as recomendações do teleatendimento, mas ele precisa ligar para não sofrer penalidades. Um estudo interno da central mostra que a maioria dos pacientes segue as orientações telefônicas.

GCD – Como o sistema é organizado em termos de tecnologia?

Chantal – Na maior parte do tempo, é simplesmente uma chamada telefônica, já que muitos pacientes não possuem equipamentos de videoconferência em casas [apesar de haver essa possibilidade]. Em casos dermatológicos, fotos podem ser enviadas à central via emails certificados. Não há um software de triagem especial, já que a consulta é feita por médicos. No entanto, um programa especial customizado é utilizado pela central para gerenciar os históricos dos pacientes. Orientações internas, baseadas em métodos científicos, são desenvolvidas e usadas para apoiar decisões médicas. A documentação médica também está sempre disponível na internet para assistentes e médicos. A central de teleatendimento precisa atender as mesmas regras de proteção de dados seguidas por organizações médicas e possui a mesma responsabilidade delas.

GCD – O plano de saúde pede às pessoas que telefonem antes de visitar um especialista. Como os médicos reagiram a isso?

Chantal – Alguns médicos não acreditam na ajuda da telemedicina e a veem como uma concorrente direta (principalmente os clínicos gerais). Muitos, por outro lado, enxergam vantagens em evitar filas no atendimento causadas por casos simples, especialmente na sala de emergência. A grande questão é sempre a capacidade da central de teleatendimento detectar casos de emergência ou agudos.

GCD – Há riscos de diagnósticos errados?

Chantal – Os assistentes de telemedicina e os médicos recebem treinamentos especiais em telemedicina. E como os clínicos que trabalham na central possuem as mesmas responsabilidades que qualquer organização médica, os riscos tendem a ser minimizados e, em caso de dúvidas, o paciente é enviado para uma consulta “real”.

GCD – Segundo seus estudos, do ponto de vista financeiro, há ganhos tanto do lado dos pacientes quanto das seguradoras. Porém, por quanto tempo esse ganho duplo é mantido?

Chantal – A estimativa foi feita para um período de seis anos (2000 a 2006) e a economia percebida foi a média nesse intervalo. Fizemos a mesma estimativa para um período de sete anos (2001-2007) e encontramos o mesmo nível de poupança, o que sugere que a economia é estável ao longo do tempo. A razão implícita é que se o recurso a um serviço de telemedicina evita cerca de duas visitas aos consultórios por ano, em média, por pessoa, o montante a ser salvo será mantido pequeno, mas estável ao longo do tempo.

GCD – Esse modelo é privado. Ele poderia ser oferecido também no serviço público?

Chantal – Claro que poderia. Na Suíça, planos de saúde obrigatórios são oferecidos por empresas de seguro privadas, principalmente por razões históricas. Os serviços de telemedicina podem ser usados de diferentes maneiras e com diferentes objetivos: oferecer melhor orientação ao paciente, serviços médicos a regiões isoladas, apoiar médicos de hospitais pequenos, tratamentos de doenças crônicas... Mas os serviços precisam ser adaptados a cada sistema de saúde e a cada objetivo a fim de atender às expectativas dos pacientes e introduzir os incentivos corretos ao sistema.

Data: 10 de maio de 2011
Autor: Marcelo Medeiros

«Voltar



Apoio: