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Modelo de negócio no desenvolvimento das Cidades Digitais

Mauricio Williamson (*)

A adoção do conceito Cidade Digital depende muito da vontade política de seu governante ou de uma demanda da comunidade local, mas a tomada de decisão depende do objetivo estratégico e do cumprimento aos princípios da Lei da Responsabilidade Fiscal. Antes de qualquer coisa, é necessário responder as seguintes questões:

a) Quais são as oportunidades criadas pela adoção da Cidade Digital?
b) Quais são os custos e recursos necessários desta complexa infra-estrutura?
c) É possível formar parcerias com o setor privado para compartilhar riscos e custos?


As perguntas “a” e “b” podem ser respondidas por meio da formulação do Modelo de Negócio, enquanto a pergunta “c” deve ser respondida através do desenvolvimento de um Plano de Sustentabilidade. Neste artigo, vamos tratar da formulação do Modelo de Negócio.

Todo o processo de Modelo de Negócio no desenvolvimento de uma infra-estrutura de Cidade Digital é baseado no Conhecimento Especializado. Este, por sua vez, está estruturado em justificativas e argumentos, que identificam as necessidades da adoção da Cidade Digital, e na análise das probabilidades, que reforçam as melhorias alternativas do projeto e demonstram quais os caminhos que levam ao equilíbrio do investimento.

Justificativas e argumentos

Justificativa 1: Entidades de governo local e negócios necessitam do uso compartilhado da infra-estrutura da Cidade Digital
Argumento: Governo local e negócios necessitam do uso da infra-estrutura da Cidade Digital de forma distinta. Entretanto, observa-se que determinadas funções operacionais atendem ao mesmo tempo às duas entidades, apesar dos objetivos totalmente diferentes de cada uma (capital social/lucro). Esta é uma boa justificativa de compartilhamento dos recursos da Cidade Digital no atendimento das necessidades básicas de uma comunidade.

Justificativa 2: Serviços de Internet comercial fixa é uma pequena parcela no atendimento as necessidades de municípios brasileiros
Argumento: Nos últimos anos, vários municípios brasileiros tomaram a iniciativa da implantação de uma infra-estrutura de Cidade Digital com diversos objetivos. Estas iniciativas inovadoras têm utilizado preliminarmente a tecnologia 802.11 (Wi-Fi) com variado nível de envolvimento por parte dos municípios no negócio.

Este nível de envolvimento deve-se ao fato de que tradicionalmente este tipo de fornecimento tem beneficiado as empresas de telecomunicações, que agora já perceberam que os governos locais estão de olho neste mercado para serviços de Internet comercial como um provedor de internet wireless.

Justificativa 3: Eficácia e eficiência não são propostas iguais, são apenas benefícios propostos na adoção da Cidade Digital
Argumento: Normalmente, elege-se uma lista de benefícios que deverão atender à implantação da Cidade Digital, os quais se tornam objetivos a serem atingidos. Essa lista contém nove itens na ordem decrescente:

 

Classificação Objetivo Benefício
1º.
.
Município competitivo
Desenvolvimento econômico
Eficácia
3º.
4º.
Produtividade dos servidores públicos
Economia com gastos com serviços de TI e Telecomunicações
Eficiência
5º.
6º.
Melhoria da Segurança Pública
Aumento de arrecadação pública
 
7º. Acesso universal Inclusão Digital
8º. Redução de congestionamento  
9º. Outro  

Podemos justificar alguns dos benefícios e objetivos da seguinte forma:

  • Eficácia – diversos objetivos eficazes são difíceis de quantificar e tornar o cenário propício ao retorno do investimento (investimento inicial + despesas operacionais x período). A razão é muito simples: não existe uma forma de mensurar em valores monetários. Entretanto, a partir destes benefícios é presumida a existência da Cidade Digital. 
  • Eficiência – é a meta da administração pública, que executa diversos tipos de serviços para a comunidade local. A vantagem é que estes objetivos podem ser medidos através de parâmetros, tais como homem/hora, que conseqüentemente podem ser convertidos em valores reais e na economia proposta de gastos com os servidores públicos. Com esses resultados, pode-se justificar a adoção da Cidade Digital através do cenário de economia das despesas públicas no município.  


Justificativa 4: Acesso à banda larga não possível para comunidade de baixa renda ou rural
Argumento: A massificação do acesso à banda larga tem sido um objetivo estratégico para diversos países. O Brasil conta hoje com 10,04 milhões de conexões à Internet via banda larga. Para um País com quase 190 milhões de habitantes, é pouco que somente 4,6% dos brasileiros tenham esse privilégio.

Na implementação da infra-estrutura da Cidade Digital, normalmente um dos objetivos é prestigiar as comunidades de baixa renda, e outro é fornecer cobertura às zonas rurais. Isto se deve em razão das novas tecnologias de rede wireless, que possibilitam disponibilizar o acesso em qualquer lugar e a qualquer momento, sendo, portanto, uma louvável justificativa da adoção da Cidade Digital no município. 

Análise das probabilidades

Assertiva 1: Custo de projeto de Cidade Digital é muito caro e complexo
Argumento: No Brasil ainda não existe informação sobre o custo do projeto de uma Cidade Digital, pois a maioria refere-se a projetos patrocinados. Para saber o custo real de uma implementação, utilizamos um levantamento feito nos Estados Unidos, em 2005. O valor previsto é na ordem de US$ 150.000, sendo que US$ 50.000 para o investimento inicial, para atender as seguintes despesas: financiamento do projeto; consultoria; projeto de instalação; software e equipamento; testes finais; e US$ 20.000 por ano (durante cinco anos) para cobrir as despesas operacionais, que incluem backhaul (banda larga); manutenção dos equipamentos e rede; gerenciamento de clientes; suporte a rede.

Assertiva 2: Baixa densidade de usuários por área de cobertura ocasiona fracasso no projeto de Cidade Digital
Argumento: Com base na mesma pesquisa dos EUA, observou-se que a análise das grandes iniciativas de cidades norte-americanas indicava que a densidade de usuários relacionados com a área de cobertura e pagamento mensal pode significar o sucesso ou o fracasso do projeto.

Das cidades pesquisadas, somente 54% tiveram que rever a data prevista para atingir a linha de sustentabilidade quando a assinatura mensal era da ordem de US$ 25 por assinante. Enquanto isso, 88% conseguiram alcançar a linha de sustentabilidade quando o valor por assinatura era de US$ 100 e, finalmente, 90% conseguiram chegar até lá desde que o valor fosse de US$ 250.

Isto é importante analisar porque não existem usuários com o mesmo perfil, não esquecendo que a infra-estrutura também deve atender ao governo local e seus usuários internos.

Claramente, uma rede com baixa densidade de usuário pode comprometer seriamente o cenário de retorno do investimento, a não ser que ela seja voltada para benefício específico do município, por exemplo, para as áreas da segurança pública, educação ou saúde, nas quais o valor é definido em eficiência e não em custos operacionais.

Assertiva 3: Consumidor sempre requer preço baixo
Argumento
: O interesse em utilizar o acesso à infra-estrutura da Cidade Digital é sempre alto em contraposição ao pagamento pelos serviços, sempre muito baixo. É necessário desenvolver um diferencial baseado em valor agregado no uso da infra-estrutura de Cidade Digital.

A possibilidade de responder à demanda de áreas de baixa renda e à zona rural é uma boa justificativa na construção da Cidade Digital, tendo como possibilidade atender a usuários que não recebem estes serviços através de outras tecnologias alternativas (cabo, DSL, etc.)

Assertiva 4: O projeto de Cidade Digital poderá ser um insucesso quando houver complexidade não verificada e problemas no desenvolvimento do benefício econômico.
Argumento
: Um projeto de Cidade Digital tem barreiras operacionais e tecnológicas, portanto está exposto a uma variedade de falhas. Entre as barreiras operacionais mais comuns, estão:

  • Orçamento: os municípios são controlados por orçamentos rígidos, o que muitas vezes dificulta a justificativa para um novo empreendimento. Despesas e projetos de longa duração precisam ter uma clara definição do custo e do retorno do investimento.
  • Vontade política: muitas vezes a tomada de decisão em projetos desta importância provoca uma reação da oposição.
  • Preço: determinar preço é muito complicado quando é necessário perseguir a estabilidade econômica.
  • Estimativa de benefícios: Calcular benefícios através da tecnologia não testada e com pequenos históricos e mudanças constantes de panorama é extremamente difícil.


Entre as barreiras tecnológicas, destacam-se as seguintes:

  • Extensão da rede não provada: através de nós e avançados algoritmos de roteamento que possam dar suporte a novas extensões da rede.
  • Espectro não licenciado e confiável: através da tecnologia 802.11 (Wi-Fi) com freqüências 2.4 e 5.8 GHz, que não requerem licença de uso de espectro.
  • Mudanças de tecnologias: o padrão 802.11 é a maior razão no desenvolvimento de diversas inovações em infra-estrutura de Cidade Digital pelo mundo, entretanto, tem o seu limite de trafego. Ao se investir em equipamentos, é preciso avaliar o risco de eles se tornarem obsoletos durante o ciclo de vida do projeto de Cidade Digital.
  • Qualidade de serviço e mobilidade: diversas iniciativas incluem fortes aplicativos de mobilidade, tais como Voz sobre IP. Entretanto, é preciso exigir níveis de qualidade de serviço (QoS) para obter alta qualidade de voz.


Ciclo de vida de um projeto de Cidade Digital

As barreiras operacionais e tecnológicas mencionadas anteriormente têm muita influência no aspecto de sucesso ou insucesso nas três etapas no ciclo de vida do projeto de Cidade Digital: construção, operação e realização. A falta de análise dessas barreiras resulta em falhas que não antecipam os custos e a complexidade no desenvolvimento do plano de sustentabilidade.

É necessário seguir os procedimentos adequados em cada ciclo de vida do projeto, a saber:

  • Construção da Cidade Digital: a justificativa da implementação da infra-estrutura de Cidade Digital atualmente deve ser baseada nos parâmetros de retorno do investimento, vontade política e testes experimentais (projeto piloto), tendo como visão global do projeto uma solução de baixo custo proporcionada pela tecnologia 802.11 (Wi-Fi) ou superior.
  • Operação, start-up e resultado: nos primeiros 12 a 24 meses, os projetos devem ser ativos e proporcionar rendimentos iniciais. Estes resultados preliminares devem estabelecer prioridades e definir quais investimentos devem ser redirecionados, continuados ou encerrados. Os projetos com benefícios operacionais devem oferecer valorização calculada e fácil tomada de decisão, ao passo que os de desenvolvimento econômico devem permanecer de forma não mensurável. 
  • Realização: em dois a cinco anos, é possível ter um conhecimento dos custos e benefícios. Os municípios já deverão estar aptos a executar com eficiência os serviços propostos em projeto, levando em conta se há alternativas mais atraentes na região em termos de custo, por exemplo, o 3G.


(*) Mauricio Williamson é engenheiro elétrico pela USP, com mestrado em Redes de Computadores – Protocolos pela Universidade da Califórnia e doutorado em Robótica pela Universidade de Princeton, e é consultor de projetos de Cidades Digitais.

 

Data: 26 de setembro de 2008

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