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Internet das Coisas começa a se disseminar no âmbito governamental

Conexão de objetos e seres vivos à Internet abre possibilidades de economia e de serviços mais eficientes por parte do poder público. No Brasil, US$ 70 bilhões devem ser gerados no contexto da Internet das coisas aplicada à administração federal, estadual e municipal, mas há riscos à privacidade e ao funcionamento da máquina

Em uma apresentação de 1999, Kevin Ashton, então gerente de marcas da Procter & Gamble, afirmou que “adicionar identificação de radiofrequência (RFID) e outros sensores a objetos cotidianos criará uma Internet das coisas e fará as fundações de uma nova era da percepção das máquinas”. Foi uma das primeiras vezes que se utilizou a expressão “Internet das coisas”, que está relacionada, de forma resumida, à conexão de objetos cotidianos a redes de comunicação, possibilitando seu monitoramento e coleta de dados.

Nesses 15 anos, o que era um exercício de futuro se tornou realidade, a ponto de analistas o verem como a nova grande onda da Internet. Sensores e mecanismos de conexão estão cada vez mais presentes em máquinas e até seres vivos, graças à nanotecnologia, que gradualmente encolhe aparelhos eletrônicos, e à capacidade de transmissão, conexão e registro de objetos na rede. Artigo publicado em novembro de 2012 na revista acadêmica Journal of Sensor and Actuator Networks afirma que o número de aparelhos conectados à Internet superou a quantidade de pessoas já em 2008 e, em 2020, deve atingir a marca de 50 bilhões de unidades.

A tendência parece aprofundar-se em todas as áreas da sociedade, inclusive na administração pública. Prefeituras, governos e autarquias têm crescentes possibilidades de aplicação da “Internet das coisas” para melhorar suas práticas internas e a vida dos cidadãos, acelerando respostas e poupando (ou gerando) recursos. 

“Com tecnologias cada vez mais miniaturizadas, podemos colocar inteligência nos limites mais externos das redes, permitindo que os processos de gestão e operação das cidades sejam mais descentralizados, com decisões sendo tomadas localmente, melhorando o seu desempenho, escalabilidade e aumentando a rapidez das decisões”, escreve, em artigo, o Gerente de Novas Tecnologias da IBM Brasil, Cezar Taurion.

Em termos de negócios, as oportunidades que a Internet das Coisas traz para empresas e governos do mundo representam US$ 19 trilhões, sendo US$ 14,4 trilhões em iniciativas privadas e o restante, para o setor público até 2022, segundo a Cisco. No Brasil, o montante previsto chega a R$ 70,3 bilhões só para o governo.

Não são poucas as áreas da administração pública onde essas iniciativas se tornam comuns, principalmente nas cidades. De acordo com a consultoria IDC, defesa, sustentabilidade ambiental, saúde, segurança pública, turismo e transportes são os setores onde a adoção das novas tecnologias é mais fácil e elas estão mais maduras. Nelas são geradas importantes economias e obtidos fortes ganhos de eficiência, que resultam nos valores projetados pela Cisco.

Para a empresa de tecnologia, os maiores ganhos serão na construção de prédios inteligentes (negócios de US$ 100 bilhões), monitoramento de gás (US$ 69 bilhões), estacionamentos inteligentes (US$ 41 bilhões), abastecimento de água (US$ 39 bilhões) e pedágios de vias (US$ 18 bilhões.)

Exemplos de aplicações não faltam. Em 2012, a prefeitura de Paris instalou sensores em árvores da cidade para otimizar a conservação das espécies e detectar infeções que possam colocar em risco a saúde delas e das pessoas. Outro aspecto medido é a sombra que a árvore faz, que ajuda a controlar a temperatura das ruas e a qualidade do asfalto, no verão.

Em Boston e Chicago, lixeiras passaram a emitir alertas para a companhia de limpeza urbana quando cheias. A empresa, então, organiza a coleta de acordo com prioridades e envia funcionários para coletar detritos de cestos perto do limite, quando necessário. A mesma iniciativa, implementada na Finlândia, gerou uma economia de 40% aos cofres públicos no serviço de coleta de lixo.

Em Turim, na Itália, pacientes com doenças crônicas, como diabetes, podem vestir sensores que os avisam sobre horários de remédios e alterações corporais. O equipamento também entra em contato com o médico responsável de acordo com a gravidade do sintoma.

No Brasil também há iniciativas do gênero. A prefeitura carioca, por exemplo, equipou ambulâncias e carros da guarda municipal com GPS para direcionar melhor os chamados que recebe. Na baiana Vitória da Conquista, uma iniciativa piloto da prefeitura acoplou chips nos uniformes escolares a fim de melhorar o controle da frequência dos 17 mil alunos das 25 escolas da rede municipal. Alertas eram enviados a pais e diretores escolares quando o uniforme não estava em sala no horário.

Iniciado em 2011, o projeto foi suspenso no ano passado após críticas de controle excessivo sobre crianças e adolescentes e problemas de funcionamento dos chips. Ainda assim, a prefeitura alega que a taxa de evasão caiu com os dispositivos.

Em termos nacionais, em janeiro de 2014 os carros que circulam pelo país começaram a receber chips, parte do Sistema Nacional de Identificação Automática de Veículos (Siniav) . Os dispositivos armazenarão dados para facilitar o controle e a fiscalização por meio de monitoramento em tempo real. Antenas instaladas em rodovias poderão averiguar se os carros estão regulares, evitando fuga de veículos roubados, por exemplo.

Apesar da variedade de aplicações, cuja quantidade não para de crescer, limitações e riscos são evidentes, como ficou claro no caso do município baiano. Segundo a IDC, eles se devem ao estágio ainda embrionário da tecnologia e à forma de gerenciá-la. 

É o último aspecto o principal empecilho para sua adoção no setor público. A maneira de administrar a quantidade de dados e os mecanismos se desdobra em outras questões. Uma delas é entender as informações geradas pelos aparelhos e não buscar apenas solucionar aspectos técnicos. “Cada ‘coisa’ conectada deve ser considerada um ponto de captura de dados, de análise, de ação”, diz Massimiliano Claps, autor do relatório “A chegada da era da Internet das Coisas no Governo”, da IDC. “O valor que pode ser obtido desses objetos, tanto para melhoria da produtividade interna quanto para aumento da qualidade do serviço, se torna uma questão de dados mais do que de infraestrutura.”

Outro ponto é a escala e a natureza distribuída dessa nova forma. A disseminação de aparelhos demanda e vai demandar ainda mais capacidade de transmissão, arquivamento e análise de dados. “Será mais parecido com o gerenciamento de redes de telecomunicações”, afirma Claps. Além da capacidade técnica para administrar o mar de informação, será preciso encarar desafios relacionados à segurança, evitando ataques a servidores e roubos de dados.

A “Internet das coisas” é a próxima fronteira de hackers. “Tantas capacidades podem ser demasiadamente assustadoras se você parar para pensar por um tempo”, afirma Rebecca Herold, professora da Universidade de Norwich, na Inglaterra, em apresentação recente. “É um desafio fazer tudo o que a Internet das coisas promete sem causar danos irreparáveis à vida das pessoas ao mesmo tempo em que se seguem regras e padrões consistentes”.

E, para tanto, de acordo com a Cisco, é necessário preparar equipes multidisciplinares. “A liderança das cidades devem entender como os componentes da IoE – pessoas, processos, dados e coisas – atuam especificamente e trabalham em conjunto para permitir as cidades do futuro”, diz relatório da companhia. A empresa acredita que serão necessários novos modelos de governança para lidar com as novidades tecnológicas que já estão sendo implementadas e, mais importante, as que estão por vir. 

Para os analistas, será preciso mais colaboração entre equipes internas dos governos e destes com o setor privado para fomentar o diálogo e gerar soluções mais rapidamente para lidar não só com questões relacionadas à infraestrutura de TI como à interpretação dos dados produzidos e à privacidade dos cidadãos.

A garantia dos direitos individuais, aliás, é uma das principais preocupações relacionadas ao desenvolvimento da IoT. Professor do curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Bahia (UFBA), André Lemos lembra que o risco de perda de privacidade já é real e que, apesar de necessário até certo ponto, como parte de uma democracia (o governo, por exemplo, precisa saber quanto ganhamos para cobrar impostos), gera outros problemas. “A questão me parece ser a de impossibilidade de ocultamento, de esquecimento, e a fé na transparência e na gestão automatizada da vida. Ocultamento e esquecimento são condições necessárias à existência e à confiança entre pessoas”, disse ao Guia das Cidades Digitais.

Lemos reconhece que cada vez mais fazemos parte desse universo, pois escolhemos utilizar essas ferramentas. No entanto, os governos devem implementar políticas que garantam a posse e a possibilidade de apagamento dos dados pessoais gerados pelos aparelhos utilizados no dia a dia atual. Do lado do indivíduo, a dica é, sempre que possível, não fornecer dados pessoais, como CPF, endereços etc. “Isso está se tornando mais difícil a cada dia, mas é uma ação que pode minimizar o uso dos nossos dados.”

Em relação à “gestão automatizada da vida”, o temor é que decisões importantes passem a ser tomadas por softwares e não por pessoas capacitadas a atender a cidadãos. Um futuro cada vez mais presente, que pode gerar erros e decisões não trabalhadas em uma democracia. Questões que devem ser trabalhadas para que os benefícios da novidade não se percam.

Data: 17 de janeiro de 2014
Autor: Marcelo Medeiros

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