Infovia Municipal: a nova casa da Internet
Leonardo Mendes*
Infovia Municipal, Rede Comunitária, Rede Cívica, Rede Social, Rede Livre, Cidade Digital, e outros tantos nomes, dizem respeito a um movimento universal voltado à construção de um novo conceito em comunicações, inaugurado a partir da evolução das redes globais de computadores e, em particular, da Internet.
A Internet é o resultado da integração das redes experimentais de comunicações de dados que foram desenvolvidas em um grande número de países. O Brasil também participou deste processo, ainda que tardiamente, com as redes Transdata (1980) e Renpac (1985).
A principal origem da Internet pode ser traçada até a Arpanet, uma rede experimental de origem militar desenvolvida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos no fim da década de 60, ainda durante a Guerra Fria. Foi principalmente através da Arpanet que foram desenvolvidos os principais protocolos de comunicações de dados atualmente em uso na Internet.
Em sua origem, não se imaginava a Arpanet como uma rede do tipo da Internet dos dias de hoje. No princípio, supunha-se que estas redes dariam origem a grandes redes nacionais de uso relativamente restrito. Um dos resultados desta visão foi a escolha tímida para o plano de endereços do protocolo TCP/IP, o que acabou provocando, nos dias de hoje, uma carência de números IP públicos para impulsionar a Internet (mas para isto já existem outras soluções como, por exemplo, CIDR e IPv6).
No entanto, principalmente devido às explosivas evoluções da eletrônica e da microeletrônica, aliadas às não menos importantes revoluções nas redes de interconexão via rádio (wireless) e fibras ópticas, o papel das redes de comunicações de dados acabou indo muito além do previsto.
Já no fim da década de 70 e início da de 80, outras iniciativas de objetivos específico, como Bitnet, Usenet, Janet (Inglaterra, 1984) e NSFNET (USA, 1985), estavam surgindo.
Os próximos passos foram rápidos e radicais. Para o fim da década de 80, estas redes convergiram para a criação de uma internet global, ou simplesmente Internet, como “ela prefere ser chamada”, que se tornou uma rede pública global e “única” no início da década de 90. A partir de então, foram sucessões de novidades tecnológicas, ou simplesmente lógicas, que formaram aquela que já é talvez a maior rede de comunicações da história da humanidade.
Uma descrição detalhada da Internet, sua tecnologia e história, está fora do escopo deste artigo, mas podemos dizer que a Internet é uma rede global que se difere de tudo que já aconteceu.
Enquanto redes como a de telefonia ou de televisão foram desenvolvidas, e ainda operam, centradas em um serviço específico (voz para telefonia e vídeo para televisão), a Internet foi concebida centrada na comunicação de dados, mas se mostrou apta também ao telefone e à TV.
Ou seja, através da Internet podemos ter dados, voz, vídeo, conferências, videoconferências, TV sobre IP, teatro sobre IP, cinema sobre IP, jogos, jogos online, avatares, “second life”, e uma infinidade de outros programas, ambientes de relacionamento e tantas outras aplicações existentes ou que ainda serão desenvolvidas.
Nesta história toda, um problema, entretanto, permanece: “a Internet não tem casa”. O que isto significa? O telefone, por ocasião de seu invento, ganhou uma rede própria que incluía seu modelo econômico de comercialização. Este modelo é da segunda metade do século 19 e está, com pequenas atualizações, em voga até hoje.
Após o intervalo em que as primeiras experiências de radiodifusão de TV estacionaram por conta da segunda Grande Guerra, a comunidade mundial retorna ao ritmo inicial para consolidar os modelos tecnológico e comercial de distribuição de TV na segunda metade da década de 40.
Ou seja, praticamente desde suas origens, a TV e o telefone possuem sua rede e seu modelo próprio de comercialização. Isto é, eles “possuem casa”.
E a Internet? Se quisermos acesso, precisamos de um modem e uma linha discada; ou um modem de banda larga da companhia telefônica ou da empresa de TV a cabo. Isto significa que a Internet não possui rede própria. Precisa pedir emprestado e ficar sujeita (e com isto nós temos que nos sujeitar também) às condições impostas pelas operadoras de telefonia e de TV a cabo.
O que é a Infovia Municipal? Acredito que muitas definições podem ser dadas a ela. Aqui eu gostaria de acrescentar mais uma: “é a casa própria da Internet”. A união do acesso à Internet com o acesso aberto e universal à Infovia Municipal gera um ambiente livre de amarras e altamente rico para a construção e difusão de conhecimento social. É a liberdade para a Internet, é a liberdade para a sociedade da informação, é a liberdade para a sociedade.
Com as Infovias, a chamada “última milha” deixa de pertencer à operadora e passa a pertencer ao usuário (algo parecido com o unbundling tão desejado pela comunidade de telecom). A construção das Infovias, e seu uso como rede de acesso à Internet, está regulamentada na maior parte dos países do mundo (inclusive no Brasil). Sua viabilidade econômica está demonstrada e seu impacto social é do conhecimento de todos. Assim, não há razões para esperarmos mais por isto.
* Leonardo Mendes é professor doutor da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Laboratório de Redes e Comunicação (LaRCom/Unicamp).
Data: 24 de julho de 2008
Autor: Leonardo Mendes