Em Celso Ramos, estradas virtuais na cidade de ruas de terra
A pequeníssima Celso Ramos (SC), com apenas 2.700 habitantes, ex-distrito do município de Anita Garibaldi, vem conseguindo sair do lugar-comum de uma cidade pequena de interior que fica longe de tecnologias. A conexão sem fio à internet gratuita em toda a cidade é a responsável pela mudança em alguns hábitos da população, espalhada pelo centro urbano e por 12 comunidades rurais, distantes quilômetros umas das outras. "O MSN é usado direto", conta Índio Emanuel de Lima Bezerra, técnico em informática do município e responsável pelo projeto.
Da dúzia de comunidades rurais — todas dedicadas à principal atividade econômica da cidade: agricultura —, oito dispõem de conexão à internet já instalada nas casas. As outras quatro ainda não têm por falta de pedidos. "Ainda não houve procura. A partir do momento em que houver duas ou três pessoas solicitando, vamos lá instalar", conta Bezerra. Para solicitar a instalação, basta dispor de um computador com placa wireless. Não há qualquer outro requisito.
A rede municipal é espalhada via Wi-Fi para 70% do território municipal (na zona urbana, a cobertura é de 100%), que conta com uma largura de banda total de 4 Mbps. Metade é destinada ao uso na zona urbana — conectando secretarias, uma escola, o posto de saúde central, a prefeitura e iluminando toda a área com sinal sem fio aberto — e metade é destinada às zonas rurais. O sinal consegue ser distribuído por uma única torre, com alcance de 15 quilômetros de raio.
O projeto começou a ser implementado em 2006, quando o técnico de informática da prefeitura percebeu que podia levar internet a toda a população com uma verba um pouco maior do que a que vinha sendo gasta com um link de 1 Mbps para uso na sede municipal e em alguns poucos órgãos públicos. "Gastávamos R$ 2.700 mensais com esse link de 1 Mbps e mais R$ 800 por mês com um link satelital que levava o sinal a algumas áreas rurais", conta Bezerra. Foi feito um acordo com uma empresa da cidade vizinha de Campos Novos, a 30 quilômetros de distância, para levar o sinal via rádio até Celso Ramos. Hoje, gasta-se mensalmente com a infra-estrutura tecnológica atual, quatro vezes maior, R$ 4.400.
Na cidade pequena, com pouca estrutura administrativa, uma grande rede de interligação de escolas ou de postos de saúde não é prioridade, tampouco a implementação de serviços avançados de e-gov. Na realidade da cidade, cujas zonas rurais sequer têm telefone, conectar a população com o mundo era mais importante. Por isso a opção até agora de colocar o foco no oferecimento de acesso à rede mundial de computadores. As secretarias ainda não estão, portanto, interligadas, com complexos sistemas de centralização de dados. Existe, porém, a intenção de fazer isso no futuro, ainda sem detalhes programados.
E foi a opção de levar internet para toda a população que começou a operar uma pequena mudança cultural na cidade. "Muita gente que está nas áreas locais acessa ao ar livre com notebooks", conta Bezerra. Segundo ele, a maioria dos usuários da cidade está na faixa etária de 13 a 30 anos e o principal uso vem sendo para fins estudantis e educacionais. "As pessoas passam a ter acesso a mais coisa. Chegam aos órgãos públicos com projetos mais interessantes. A criançada aprende a usar e começa a ensinar ao pai e à mãe", diz o técnico de informática.
As crianças, por sinal, aprendem nas duas escolas municipais (do total de três pertencentes ao município) que têm laboratórios de informática. Na principal, localizada na área urbana, 12 máquinas ligadas à internet ficam à disposição dos alunos dentro e fora dos horários de aulas. Na outra, situada em uma das comunidades rurais a 15 quilômetros do centro, mais seis máquinas podem ser usadas pelos estudantes do colégio para navegar na web e executar outras atividades.
O restante da população que ainda não tiver computador em casa poderá em breve utilizar o telecentro que está em fase final de instalação. Montado com o kit doado pelo Ministério das Comunicações — através de um programa nacional de distribuição de kits de telecentros para todas as cidades brasileiras —, o telecentro terá acesso franqueado a toda a população. Haverá também cursos gratuitos de informática básica. "O que precisa mudar na cidade é a informação das pessoas sobre o que fazer com o computador e a internet. Muita gente ainda não sabe. Por isso, por exemplo, ainda temos quatro comunidades sem gente interessada em solicitar a internet gratuita", analisa Bezerra.
Ainda neste ano, pretende-se colocar um firewall na rede para limitar seu uso, restringindo o acesso a sites de pornografia e downloads de filmes e músicas. Outro plano para o futuro próximo é usar a rede para monitorar o município. "Queremos colocar câmeras de segurança em 12 pontos da cidade para fazer vigilância. Tivemos alguns problemas recentes, depois que chegou o asfalto", revela Bezerra, mostrando mais uma vez o caráter inovador da iniciativa tecnológica que vem mudando a cidade de ruas de terra.
Data: 17 de outubro de 2008
Autor: Maria Eduarda Mattar