Especialista diz que não há uma receita certa
Professor da Carnegie Mellon University, dos EUA, o engenheiro Jon Peha é considerado um dos maiores especialistas norte-americanos em redes digitais sem fio. Tanto que é diretor-associado do Centro de Pesquisas sobre Comunicação, Wireless e Banda Larga daquela universidade. Presente em grandes seminários, como o Congresso Europeu de Cidades Digitais, objeto da reportagem “Europa discute Cidades Digitais” neste portal, Peha concedeu entrevista exclusiva ao Guia das Cidades Digitais, na qual responde sobre algumas das mais polêmicas questões que, atualmente, dizem respeito ao poder público na área de acesso à internet.
Nesta entrevista, feita por e-mail, o professor discute modelos de sustentabilidade e dá exemplos relacionados à realidade americana. Para ele, não é possível dar uma receita certa de como construir uma rede inclusão digital, pois há muitas variáveis inseridas no problema. Contudo, uma certeza há: é preciso saber para que servirá o acesso à internet, seja ele gratuito ou pago.
Guia das Cidades Digitais: Acesso público e gratuito via Wi-Fi é sustentável?
Professor Jon Peha: Onde há infra-estrutura, alguém precisa pagar por ela. Há cidades com modelos sustentáveis nas quais os serviços são oferecidos gratuitamente. Em outros casos, os serviços gratuitos são sustentados por anúncios. E também há projetos em que há um mix de serviços gratuitos e serviços "premium" para assinantes dispostos a pagar por eles.
GCD: Quais são os maiores obstáculos para os projetos públicos?
Jon Peha: O mais importante é perceber do que um projeto de Wi-Fi deve fazer parte, e aí decidir se um projeto de Wi-Fi é a realmente a melhor maneira de atingir esse objetivo. Se sim, basta definir o projeto de acordo. Muitos projetos falham justamente porque aqueles que os definem não têm uma idéia clara do que estão tentando alcançar.
GCD: Uma discussão bastante importante no Brasil é como manter provedores privados ao mesmo tempo em que prefeituras e governos oferecem acesso gratuito. É possível manter os dois modelos?
Jon Peha: Enquanto os dois tipos de provedores atenderem a diferentes lugares ou mesmo oferecerem serviços diferentes, acredito que seja possível, sim, eles coexistirem. Mas é preciso deixar claro os limites de cada um.
GCD: Por trás da aparência de uma nação coberta por internet banda larga, os EUA possuem grandes problemas relacionados à inclusão digital, principalmente nas áreas rurais. Como resolver isso?
Jon Peha: Há muitas desigualdades em relação ao acesso à internet e cada uma demanda uma solução diferente. Para a diferença entre as zonas rural e urbana, é essencial tornar o espectro disponível por meio de leis apropriadas aos sistemas de banda larga rurais. Depois disso, seria útil pensar maneiras de ajudar os provedores a cobrirem seus custos iniciais de construir um sistema do zero. Depois disso, porém, eles provavelmente poderão tomar conta de si próprios.
Essa, por exemplo, é uma solução bastante diferente da do caso relacionado à renda, ou seja, entre ricos e pobres. Neste, precisamos pensar como usuários de baixa renda conseguirão pagar suas mensalidades de serviço.
GCD: Essas soluções podem ser aplicadas ao Brasil?
Jon Peha: A melhor fórmula varia um pouco de país para país, mas há muitas lições que um pode aprender com outro. Não posso dizer qual o melhor caminho para o Brasil.
GCD:Além de acesso à internet, que tipo de política pública um governo deve prover a seus cidadãos para estimular o bom uso das TICs?
Jon Peha: Os cidadãos precisam de oportunidade para aprender sobre computadores e internet, seja nas escolas ou fora delas. Os governos também podem usar a internet para chegar aos cidadãos, o que dá às pessoas mais motivos de se usar a rede mundial de computadores. Assim se gera um ciclo virtuoso bastante positivo para todos.
GCD: Qual a melhor forma de dar acesso à internet aos cidadãos? Via telecentros, subsídios ou liberando o mercado?
Jon Peha: São diferentes abordagens, interessantes para cada objetivo. Os telecentros, em geral, atingem mais pessoas, pois alcançam também aqueles sem computadores ou habilidade para mexer em máquinas. Eles são bastante eficientes quando combinados com outros serviços, como capacitação de mão-de-obra. Os telecentros, portanto, podem desempenhar um importante papel — o quão importante, porém, depende de que recursos a comunidade dispõe.
Por outro lado, quem pode pagar por computadores e deseja usá-los com freqüência, para estudo, trabalho ou mesmo diversão, provavelmente vai preferir se conectar à sua própria máquina num lugar mais conveniente.
Data: 02 de outubro de 2008
Autor: Marcelo Medeiros