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Empresas devem adotar mais redes elétricas inteligentes, diz estudo

Trabalho do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com a União Europeia cataloga smart grids nacionais e iniciativas do Velho Continente para uso da eletricidade com ajuda de novos equipamentos

Os projetos de redes elétricas inteligentes (REI), que tornam mais eficiente a geração, a transmissão e a distribuição de eletricidade, tendem a se tornar cada vez mais numerosos e aprofundados no Brasil, diz recente estudo realizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com a União Europeia. Este aumento deriva de maior demanda por controle da produção e da distribuição de energia, além de mudanças estruturais no setor.

O documento, finalizado em novembro de 2014, mas divulgado em março pela pasta nacional, compila as principais iniciativas de constituição de smart grids no país e na Europa. Dados da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e da Associação de Empresas Proprietárias de Infraestrutura e de Sistemas Privados de Telecomunicações (iAptel) citados mostram que há mais de 200 projetos em andamento sobre o tema. Eles envolvem cerca de 450 instituições, além de 300 fornecedores, 126 centros de pesquisa e 60 concessionárias do setor elétrico, além de ministérios, agências reguladoras e universidades, que, juntos, já investiram R$1,6 bilhão nos segmentos de geração, transmissão e distribuição.

O estudo destacou oito projetos, responsáveis por cerca de R$200 milhões. As concessionárias responsáveis por eles foram divididas em quatro grupos, de acordo com seu desenvolvimento. O mais avançado recebeu o nome de “pioneiro” e é o menos numeroso. Nele estão Cemig, Light, EDP Bandeirante e AES Eletropaulo (esta responsável por R$ 70 milhões em investimentos). As quatro têm projetos em andamento ou já em conclusão e planejam continuar o que iniciaram, tanto com novidades como com pesquisa e desenvolvimento.

O segundo grupo foi designado “demonstrativo” e se caracteriza por ainda estarem testando projetos. É formado por Ampla, Coelce, Elektro, CPFL, Celpe, Escelsa, Copel-DIS, Eletrobras Amazonas e EDP.

Na sequência, vêm as “investigadoras”, que possuem estudos, mas ainda não os tiraram do papel. São elas Celesc-DIS, Coelba, CEEE-D, AES Sul e Celpa. 

Finalmente, vem o grupo das iniciantes, o mais numeroso. Formado por CEB-DIS, EMG, Ceal, Cemar, Celg-D, Ceron, Cepisa, Cosern, Demei, DMEPC, Elejor, Eletroacre, Eletrocar, Enersul e Sulgipe, caracteriza-se por empresas que atuam em, no máximo, três das áreas delineadas pelo estudo.

Para agrupar as companhias, os pesquisadores apontaram dez iniciativas de redes elétricas inteligentes - medição inteligente, automação da distribuição, geração distribuída, armazenamento de energia, veículos elétricos, telecomunicações, tecnologia da informação, edifícios inteligentes, novos serviços e “outros” (relacionamento com o cliente, segurança, gestão de ativos etc).

O estudo mostra que o segmento de distribuição é o mais interessado no desenvolvimento de smart grids, por ser o mais afetado pelas inovações. Os pesquisadores afirmam que os sistemas de geração e transmissão têm grau de monitoramento e controle “razoavelmente avançado”, mas isso pouco se aplica às empresas que distribuem energia entre os consumidores finais. 

“Normalmente, a automação e o controle estão limitados a operações locais onde praticamente não existe monitoramento em tempo real de importantes variáveis do sistema, como a tensão fornecida às cargas ou os valores das correntes que circulam pela rede”, escrevem.

As REI empregam tecnologias digitais para monitorar e controlar o transporte de eletricidade em tempo real, daí sua importância no segmento de distribuição. As concessionárias, assim, podem obter informações do serviço prestado e do consumo, adequando cargas, verificando demandas e falhas, além de novos serviços. Outro benefício é a melhora do relacionamento com o cliente.

No Brasil, há linhas de incentivo ao desenvolvimento dessas tecnologias, como o Inova Energia, promovido pela Financiadora de Projetos (Finep), pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O programa disponibilizou R$3 bilhões para pesquisa e desenvolvimento de uma série de iniciativas. 

Outra linha é o Programa de Pesquisa & Desenvolvimento da Aneel, que obriga as concessionárias a investir ao menos 0,2% da Receita Operacional Líquida (ROP) em estudos.

Apesar de investimentos estarem em andamento, o estudo aponta barreiras para o pleno desenvolvimento das novas tecnologias no Brasil. Segundo o documento, uma das mudanças trazidas pelas redes inteligentes é a massificação da geração distribuída. Ou seja, um quadro no qual há múltiplas fontes de eletricidade. Entre elas, a própria residência do consumidor.

“Dada essa característica, é clara a necessidade de mudanças no setor nos âmbitos

do negócio, do regulamento, da política e da indústria, já que o modelo vigente parece não acomodar as novas características apresentadas por esse novo modelo tecnológico do setor elétrico. Esse cenário não é privilégio do Brasil”, diz.

Entre as principais dificuldades estão falta de sinergia com o setor de telecomunicações. O ideal, de acordo com os pesquisadores, seria utilizar redes já existentes para poupar recursos, mas isso ainda não acontece com frequência.

Outra questão é o relativamente baixo volume de recursos investidos em pesquisa e desenvolvimento, além da baixa maturidade do mercado, assim como um modelo regulatório que impede a plena aplicação do potencial das novas tecnologias. 

Há ainda problemas relativos à regulação do mercado, à falta de mão de obra qualificada e a dificuldades de homologação de produtos.

Ainda assim, os pesquisadores acreditam que o Brasil possui uma boa base para adoção de REIs, apesar de incentivos de mercado serem necessários. A grande maioria dos medidores inteligentes de consumo, por exemplo, foram instalados com recursos de pesquisa e desenvolvimento. O cenário mais otimista para 2018, que considera o sucesso de programas de uso de medidores inteligentes pela Light e pela Eletropaulo, que já possuem iniciativas neste sentido, prevê que 12% dos aparelhos sejam “smarts”. Pouco para o potencial do país.

A solução poderia vir de um novo arranjo produtivo, que incentivasse a inovação e a adoção de novas tecnologias pelas concessionárias, além da otimização da infraestrutura de telecomunicações e de energia.

Situação é semelhante no exterior, mas avanços são mais rápidos

Atualmente, os EUA são o local mais avançado no desenvolvimento e no emprego dessas tecnologias, mas a Europa não fica muito atrás. O mesmo estudo que analisou o quadro brasileiro faz um panorama da situação do Velho Mundo. 

Por lá, há dois grandes motivadores para a produção de novidades: preocupação com o meio ambiente, uma vez que boa parte da energia produzida por lá é bastante poluente, e ausência de soberania elétrica. Ou seja, muitos países precisam adquirir watts de vizinhos, o que aumenta gastos, dependência política e outros riscos. Assim, economizar e monitorar o uso da rede é cada vez mais necessário. 

A União Europeia prevê que até 2020 a instalação de medidores inteligentes, por exemplo, alcance 200 milhões de consumidores. Em alguns países, como Suécia e Itália, estes equipamentos já representam mais de 80% do total. Calcula-se também a economia proporcionada pelos aparelhos. Na Grécia, por exemplo, 5% da eletricidade pode ser poupada se 80% dos medidores forem inteligentes.

Data: 25 de março de 2015
Autor: Marcelo Medeiros

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