Educação e tecnologia se encontram no Rio de Janeiro
Desde fevereiro à frente da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Tereza Porto tem levado para a área tudo com que sempre atuou no setor de Tecnologia de Informação. Assim, a rede pública estadual de educação está passando por processos de modernização que incluem desde a distribuição de um total de 50 mil notebooks com banda larga a professores do Ensino Fundamental e Médio à formação de uma rede de torpedos para comunicação e relacionamento com os mais de um milhão de alunos.
Nesta entrevista, ela conta um pouco dos planos da Secretaria, relata como treinamento e conteúdo foram incluídos na estratégia de modernização e defende o investimento em tantas tecnologias: “é um dinheiro bem gasto”, garante. Guia das Cidades Digitais — Na semana passada, foi lançada a campanha para matrícula online [ver vídeo ao final da entrevista] dos alunos da rede pública estadual, que somam mais de 1,3 milhão. O que há de novo nesta iniciativa?
Tereza Porto — A matrícula online já existe na rede pública estadual há seis anos pela internet. A diferença neste ano é que o retorno sobre a matrícula vai ser feito também por torpedo e por email. Antes, era por carta. E estamos fazendo uma campanha publicitária boa. Desde o ano passado, a matrícula funciona exclusivamente pela internet. Antes, tinha o call center. Mas era uma despesa que verificamos ser totalmente desnecessária. Porque, quando ainda havia o call center, 90% das matrículas já eram feitos pela internet. Intensificamos agora a campanha justamente para as pessoas não deixarem para a última hora, que é uma característica brasileira.
A matrícula pode ser feita nas séries em que a rede estadual absorve os alunos da rede municipal, que é o sexto ano do Ensino Fundamental, quando começa o segundo segmento desta fase de ensino, e no primeiro ano do Ensino Médio. Para essas séries, em que recebemos um número muito grande de alunos, fazemos a matrícula por Internet. Nas outras séries, a matrícula é automática. Nos demais casos (alunos ingressando no meio do ano, ou em séries que não o sexto ano do Fundamental ou o primeiro ano do Médio), basta procurar diretamente a escola.
GCD — Além da matrícula online, outras iniciativas já vêm criando uma “cultura digital” na educação do Estado. A distribuição de notebooks é um exemplo disso. Quantos já foram entregues?
Tereza Porto — Já foram entregues 38 mil notebooks aos professores [estaduais do] Ensino Médio. E agora estamos comprando mais 12 mil para entregar aos professores do Ensino Fundamental [da rede estadual]. Porque num primeiro momento só iríamos distribuir para os professores do segundo segmento do Ensino Fundamental e para o Ensino Médio, que são atribuições do Estado. Mas, quando verificamos que havia 12 mil professores do primeiro segmento do Ensino Fundamental, definimos que vamos ampliar o programa e distribuir para todos. Então, serão 50 mil no total.
GCD — Vocês fazem algum acompanhamento do uso que é feito? E, se sim, qual é a principal utilização feita pelos professores? E como isso se relaciona com os cursos presenciais que atualmente são oferecidos?
Tereza Porto — Os notebooks têm sido utilizados pelos professores para atualização, para pesquisa, para melhorar o conteúdo das aulas que eles oferecem. Além de distribuirmos os notebooks, entregamos também um DVD de treinamento para aqueles que não sabiam usar computador. E verificamos que, mesmo com o DVD, alguns professores estavam inseguros. Então, criamos os cursos presenciais. Em todas as regionais, ou seja, em todo o Estado, temos cursos presenciais para o professor que não se sentiu confortável.
GCD — Então eles foram uma resposta direta à distribuição de notebooks?
Tereza Porto — Exatamente.
GCD — Houve alguma resistência cultural dos professores inicialmente?
Tereza Porto — Não. Houve um pouco de preconceito. Muita gente falava assim: “É um absurdo, porque o professor vai ser assaltado, vão roubar o notebook”. E isso é um preconceito danado. Muita gente trabalha com notebook; por que só o do professor seria roubado? Para nossa tranqüilidade, só tivemos uma notificação de roubo.
GCD — O portal Conexão Professor é o viés de conteúdo dessas iniciativas?
Tereza Porto — Depois da distribuição dos notebooks, depois que os professores estavam treinados, lançamos o portal Conexão Professor. Com conteúdo e criando — e isso para nós é muito importante — um ambiente em que houvesse colaboração, em que as pessoas pudessem trocar sugestões, colaboração, tirar suas dúvidas, problemas... um espaço virtual para o encontro dos nossos professores.
GCD — A utilização do portal tem sido acompanhada?
Tereza Porto — Acompanhamos pelas coordenadorias. O Estado é dividido em 31 coordenadorias regionais. Cada uma delas é responsável por um número de escolas. Fazemos permanentemente o acompanhamento delas através das coordenadoras e também pelos Núcleos Tecnológicos Educacionais (NTEs). Existem 17 núcleos distribuídos pelo Estado que dão suporte aos professores na utilização da tecnologia como ferramenta pedagógica. Servem de estímulo e de suporte, tirando dúvidas, auxiliando quando o professor não está muito seguro na utilização de determinado objeto de aprendizagem, ou se ele vai introduzir alguma ferramenta com a qual não está adaptado, etc.
GCD — Podemos dizer que a sua experiência à frente do Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj) é uma das responsáveis pela implementação dessas iniciativas conjugando tecnologia e educação?
Tereza Porto — Por eu ser do ramo, consigo perceber com mais facilidade que a tecnologia é uma ferramenta importante, não só para modernizar e atualizar o conteúdo que a gente oferece nas escolas, mas como ferramenta de gestão também. Nós temos usado bastante as tecnologias para melhorar a qualidade das informações gerenciais que a secretaria tem.
GCD — Neste sentido, o que o Estado está planejando de ferramentas para fazer a gestão tanto intra-escolar, quanto da rede pública?
Tereza Porto — Estamos com duas licitações já publicadas. Uma é para a aquisição de um sistema gerencial para ficar disponível em todas as nossas 1.597 escolas. Este sistema de gestão, no nosso processo licitatório, estamos prevendo que os municípios poderão aderir. O software vai ser adquirido pelo governo do Estado e, se as prefeituras tiverem interesse, poderão utilizar os softwares nas suas escolas. Esse é o nosso sonho: ter as redes municipais e estadual integradas. E aí teremos permanentemente o acompanhamento daqueles alunos que vão migrar para a nossa rede e vamos poder dar um apoio mais amplo também aos municípios. Pois só vamos ter educação de qualidade quando houve integração total. Se conseguirmos fazer a oferta do ensino — tanto no nível Fundamental, quanto no Médio, que é atribuição do Estado — de uma forma uniforme, coerente, combinada, planejada, o resultado com certeza vai ser mais amplo.
Estamos licitando também a rede de integração e comunicação. Vamos fazer um cadastramento de todos os alunos da nossa rede [1,3 milhão], com foto, informações pessoais, endereço, telefone, para que possamos criar uma rede de torpedos com eles. Assim, vamos não só falar a “língua” deles, que usam muito torpedo, mas também mostrar que estamos preocupados com ele: se o aluno faltar, vamos querer saber se está doente, precisando de apoio; se tirar uma boa nota, vamos usar essa rede de torpedo para parabenizar; se tirar nota baixa, para oferecer reforço. Na verdade, queremos aproximar a escola do aluno, usando as ferramentas com as quais eles estão habituados, usando a linguagem que é mais próxima da realidade deles. Ao criar no portal Conexão Professor ferramentas, aplicativos, softwares, objetos de aprendizagem usando uma linguagem mais moderna, mais próxima do jovem, também estamos buscando modernizar essa linguagem no ensino. E para comunicação administrativa também na escola, estamos criando essa rede de integração.
GCD — E a conectividade nas escolas?
Tereza Porto — Até o final do ano, vamos completar o projeto Conexão Escola, que é a montagem de pelo menos um laboratório de informática em cada escola, com banda larga. Estamos concluindo essa implantação. Hoje falta instalar 160 laboratórios. Os professores já receberam placas de conexão em banda larga junto com os notebooks distribuídos. O acesso é ilimitado, e todo o custo é pago pela secretaria. A banda larga nas escolas será mais uma forma de conexão, instalada nos laboratórios.
GCD — O investimento em tantas iniciativas tecnológicas na área de educação tem valido a pena, está se pagando?
Tereza Porto — Com toda certeza. É uma ferramenta fundamental. E é um dinheiro bem gasto.
Data: 24 de outubro de 2008
Autor: Maria Eduarda Mattar