Computação em nuvem: riscos e vantagens para governos
Especialistas debateram uso do “cloud computing” em evento realizado em Brasília na semana passada. Entre os temas, os riscos e vantagens do uso de computadores integrados para armazenar dados.
Um dos maiores atrativos para governos na hora de organizar seus departamentos de informática é a possibilidade de poupar recursos. A tarefa, no entanto, requer cuidados para que a segurança dos dados seja mantida e a introdução de novas tecnologias não resulte em confusão dada a falta de conhecimento dos técnicos em utilizá-las. Esses aspectos sempre entram em pauta quando o assunto é computação em nuvem (ou cloud computing), meio de acesso a arquivos e programas remotos.
Durante o Consegi, realizado na semana passada em Brasília, os meios de aproveitamento da computação em nuvem estiveram em evidência. Especialistas no tema expuseram benefícios dessa forma de organização em rede, que começa a ser disseminada em grandes empresas e que lentamente começa a ser adotada no setor governamental.
A vantagem do sistema é poder acessar dados e programas por meio de diferentes dispositivos. Ou seja, a informação não fica atrelada a uma máquina, mas a um computador [denominado servidor] que pode ser acessado por meio da internet ou mesmo de intranets corporativas. Assim, há economia com computadores pessoais, licenças de software e possibilidade de realização de tarefas mesmo fora do escritório, uma vez que os dados ficam disponíveis online.
“Hoje, quando falamos sobre o tema, nos referimos não apenas a tecnologias específicas mas, também, a uma maneira diferente de se utilizar a própria tecnologia. Temos um novo tipo de usuário que obtém, ele mesmo, o serviço via internet”, explica Dave Nielsen, membro da Cloud Computing Society. “A definição de hoje leva em conta quatro elementos: armazenagem e gerenciamento alheio, autoatendimento, medição do uso do serviço e processos de adaptação automáticos.”
Para Rueven Cohen, fundador e chefe de tecnologia da empresa Enomaly, no que se refere aos governos, a computação em nuvem vai além da economia de recursos. “A questão principal para o governo não é necessariamente economizar. O foco não é dinheiro, como ganhar ou até mesmo poupar. Mas trata-se de ser competitivo diante de outros governos. E a natureza competitiva é, novamente, ser capaz de utilizar melhor e rapidamente as informações, mais do que outro país ou organização. Assim, falamos sobre velocidade, isso é o que computação em nuvem permite: velocidade rápida.”
Receita Federal: exemplo
No que se refere a adaptação e medição de uso, a Receita Federal pode ser tomada como exemplo. O órgão do governo brasileiro está adotando o sistema para otimizar seus servidores, que ficam ociosos durante boa parte do ano, quando não estão processando dados das declarações anuais de imposto de renda.
"Todos os anos, quando chega a época da entrega do imposto de renda, a gente tem uma grande necessidade de servidores, então temos que comprar ou realocar cerca de 30 servidores. A ideia é que, em vez de termos 30 servidores só para imposto de renda, que na outra parte do ano vão ficar ociosos, vamos ter uma nuvem com 100 servidores. Os serviços que tiverem pico vão ocupar a parte que está ociosa, independentemente de ser um servidor dedicado apenas para imposto de renda, vários serviços vão estar rodando lá", explicou o coordenador do Programa de Software Livre do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), Paulo Pastore.
O armazenamento de dados em servidores alheios, no entanto, preocupa diversos especialistas em sistemas. Isso porque, em alguns casos, é preciso alugar servidores de empresas privadas, o que pode motivar problemas de segurança e mesmo judiciais.
No aspecto jurídico, há questões relativas à competência territorial, pois o servidor pode estar fora do país. “A grande preocupação jurídica sobre a computação em nuvem é qual a legislação, de qual país, vai incidir sobre o local onde estão os servidores, onde os dados estão armazenados”, afirma a advogada Camilla Jimene. “Isso é importante porque, atualmente, quando são investigados ilícitos eletrônicos
que podem ser desde uma pornografia infantil, uma invasão de um sistema, até uma concorrência desleal – utilizamos como meio de identificação e de prova os logs, que são registros eletrônicos gerados por um determinado acesso a um sistema informático e telemático.”
De acordo com advogada, a legislação brasileira ainda não prevê soluções claras para esse tipo de problema. Há antecedentes que iluminam os caminhos a serem adotados, mas que não se aplicam a todos os casos. Para empresas cujos servidores ficam no exterior, explica Jimene, no caso de haver algum crime, o fórum a ser adotado é onde o fato ocorreu. Na hipótese de a empresa ter sede no Brasil, as coisas ficam mais fáceis, porém, quando isso não acontece, a situação se torna uma questão internacional de solução complicada. “A grande questão é que a tecnologia tem um tempo para ser desenvolvida, para amadurecer, para ser usada em grande escala, mas esse tempo é muito curto. E o Direito já precisa de um tempo maior, já que ele precisa esperar os problemas acontecerem para pensar em como resolvê-los”, recorda.
Segurança
Quanto à segurança dos dados, especialistas afirmam que, tomados os devidos cuidados, os riscos de se perder informações ou haver invasões de servidores são pequenos. Para Roeven Coehn, a computação em nuvem, na verdade, auxiliou empresas e governos a prestarem mais atenção em aspectos preventivos.
“Computação em nuvem é menos seguro do que a computação tradicional? Minha resposta é não. Se você olhar para a computação tradicional, digamos desktops, eles não são mais seguros. Se você olhar para a relação tradicional cliente-servidor ou para os centros de dados, eles não são mais seguros. O que a computação em nuvem tem realmente feito é abrir a ênfase no olhar de segurança”, analisa.
A utilização da computação em nuvem apresenta outro aspecto a ser debatido. Como o acesso a informações e programas depende de acesso a internet, a difusão da banda larga no país acaba por perpassar o debate. Afinal, com uma conexão lenta e não confiável, o sistema é prejudicado e torna-se até mesmo inútil.
Para a coordenadora do Programa de Engenharia de Computação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Karin Brietman, o maior gargalo ainda é o acesso à banda larga. Em sua opinião, é preciso melhorar a infraestrutura de acesso à internet para a computação em nuvem se disseminar no país com segurança. “Imagino que o Plano Nacional de Banda Larga vai ser o divisor de águas, vamos ter uma infraestrutura tecnológica que realmente dê conta de suportar a mudança de todos os softwares para um modelo de nuvem", avalia.
Fonte:
Serpro e Agência Brasil
Data: 24 de agosto de 2010