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Mangaratiba troca isolamento por conexão de alta velocidade

Até o final de 2004, não havia banda larga em Mangaratiba, no litoral sul do Estado do Rio de Janeiro. O link da administração municipal com o resto do mundo se resumia a 10 computadores com acesso à internet na Prefeitura. E o município não tinha nenhum tipo de conexão sem fio, mesmo estando a apenas 85 quilômetros da capital. Praticamente ilhada em termos de acesso digital, a cidade deu uma virada tecnológica desde então.

 Graças a uma parceria firmada em maio de 2005 entre a Prefeitura, o Proderj - Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro, a Intel e a brasileira IdeaValley, os quase 30 mil habitantes de Mangaratiba recebem hoje sinal de internet via radiofreqüência à velocidade de 48 Mbps, além de contarem com seis telecentros gratuitos. Em apenas quatro meses, as antenas estavam instaladas e os computadores foram postos à disposição da comunidade.

“Começamos o trabalho em maio, e o lançamento do projeto aconteceu em setembro, já com o funcionamento de uma escola na Ilha de Marambaia, um centro cultural, hospital e um telecentro comunitário de internet”, conta o secretário municipal de Indústria, Comércio, Turismo e Tecnologia da Informação, Pedro Lemelle.

Obstáculos geográficos

 A natureza ajudou a fazer do projeto Mangaratiba Digital uma aposta arriscada: o município ocupa uma faixa espremida entre a Serra das Araras e o mar, tem relevo acidentado e um litoral recortado, além de diversas ilhas espalhadas pela Baía de Sepetiba. Com isso, havia a necessidade de tecnologias que cobrissem longas distâncias sem linha de visada, ou seja, ultrapassando obstáculos físicos, como morros.

“A Intel estava interessada em iniciar um projeto que promovesse a mobilidade. Queriam uma cidade no estado do Rio de Janeiro. Apresentamos Mangaratiba, entre a serra e o mar, e sua geografia acidentada. Era um grande desafio e por isso fomos escolhidos”, explica Lemelle.

A infra-estrutura digital chegou mesmo aos distritos afastados da sede, como Itacuruçá, Muriqui e Conceição de Jacareí. Todos têm o potencial turístico da região do litoral fluminense conhecida como Costa Verde, que inclui ainda Paraty, Angra dos Reis e a Ilha Grande.

“Nesse projeto batemos os recordes de links sobre a água com tecnologia WiMax. Na inauguração, o presidente da Intel, Craig Barrett, fez uma videoconferência com nossa equipe, sendo que nós estávamos em um barco distante 30 quilômetros da costa”, conta Sérgio Cabral, presidente da IdeaValley.

Ele lembra que uma estratégia bem-sucedida foi a adoção de um “mix” de tecnologia com adaptações, para se adequar às condições do terreno. “A tecnologia predominante em um projeto dessa escala é wireless, geralmente WiMax, Wi-Fi e WiMesh, mas existem também tecnologias de cabeamento, fibra óptica, roteamento, cache, firewall. Utilizamos equipamentos com algumas modificações feitas in-house. Trocamos alguns conectores e cabos que causam perdas importantes para um projeto de longo alcance como esse. Todos os softwares são de desenvolvimento próprio” , diz.

Segundo Cabral, o projeto em Mangaratiba conseguiu o apoio de uma empresa do porte da Intel porque o foco “não foi político e, sim, puramente econômico-social”.

“Muitos projetos falham porque as intercessões multidisciplinares levam a uma falta de sincronismo entre as equipes, e isto termina por comprometer o resultado final. Não podemos esperar os interesses políticos dos órgãos federais, estaduais ou mesmo municipais aprenderem sobre o papel das tecnologias da informação e o comprometimento futuro do desenvolvimento social”, afirma.

Custos repartidos com a iniciativa privada

A iniciativa do projeto partiu do prefeito, Aarão de Moura Brito Neto, que criou a Secretaria de Indústria, Comércio e Tecnologia da Informação (SICTI) para ficar especialmente encarregada da implantação do Mangaratiba Digital. Os custos de instalação e de manutenção (R$ 280 mil ao todo) foram totalmente financiados pelas empresas e pelo município. O investimento incluiu a aquisição de cinco torres, seis antenas WiMax; 35 antenas Wi-Fi, oito rádios WiMax, 37 rádios WiFi, dois roteadores e 170 computadores.

 “A Prefeitura e parceiros locais e regionais ajudam-nos a manter a infra-estrutura e a operação. Continuamos investindo no projeto”, diz o secretário de Indústria, Comércio, Turismo e Tecnologia da Informação.

Mangaratiba é uma das 13 cidades no mundo e a única na América Latina a ter um projeto do gênero patrocinado pela Intel, e ganhou ainda o reconhecimento do W2I, um fórum independente fundado em 2002 com o objetivo de acelerar a adoção de Internet sem fio como apoio ao desenvolvimento social e econômico de cidades, comunidades e regiões. O esforço também gerou a inclusão da cidade na Infovia do Estado do Rio de Janeiro, o que forneceu o link inicial de 2 Mbits.

O link chega através de fibra óptica ao hospital municipal e é repetido para uma torre no morro de Santo Antônio, na sede do município, via Wi-Fi de 2.4 GHz. De lá, o sinal é dividido e repetido para a torre principal, em local mais alto, e para a comunidade da Praia do Saco, a 9 km de distância. A torre envia ainda o sinal via WiMax de 5.8 GHz para Muriqui, Itacuruçá e a Ilha da Marambaia, em distâncias que chegam a 14,5 Km.

“Em cada distrito, recebemos em WiMax de 5,8 GHz, e distribuímos em Wi-Fi de 2,4 GHz e cabo, quando a distancia é inferior a 90 metros. A tecnologia WiMax foi fundamental para a solução adotada, pois não teríamos como alcançar os demais distritos (especialmente a Ilha de Marambaia) com a repetição do sinal, devido às distâncias e às dificuldades impostas por nossa geografia. Caso decidíssemos pela criação de ‘bolhas’ Wi-Fi independentes, descartando o uso de WiMax, o projeto se tornaria inviável”, explica Lemelle.

Benefícios para a população e para a gestão municipal

 Os benefícios desse investimento já são percebidos pela população, principalmente no atendimento médico, em que a Prefeitura utiliza um software de gestão específico. Por enquanto, há interligação somente na área da saúde, entre os postos de saúde, o hospital local e a Secretaria municipal.

A educação é outra área de prioridade. Das 27 escolas municipais, 20 já recebem o sinal e começam a instalar laboratórios de informática, incluindo a escola para crianças especiais. No futuro, Mangaratiba espera ampliar os serviços no setor, com possibilidade de matrículas efetuadas por internet e gestão de recursos para escolas, entre outros. “Temos o projeto e estamos contatando fornecedores para isto, pois a infra-estrutura já está disponível. Vamos evoluir para incluir esta oferta em nossa rede”, diz Pedro Lemelle.

 Para os Telecentros, Mangaratiba optou pelo software livre. Até outubro de 2007, foram registrados 15.957 atendimentos nos computadores com Linux e equipados com impressoras. O acesso é aberto à população e totalmente gratuito.

“Lá, o munícipe encontra orientação e suporte técnico, imprime suas pesquisas e ainda recebe disquetes ou CDs para gravar seus trabalhos, também gratuitamente. Estamos provando que a população tem buscado maior contato com a tecnologia e com o conhecimento”, conta o secretário.

Além do acesso, o projeto se divide em mais quatro braços: educação, turismo, um portal de informações e serviços, e mais estudos de viabilidade para incluir todas as instituições de Mangaratiba na rede, garantindo a transparência da gestão municipal. Atualmente, o sinal abrange dez órgãos públicos e entidades parceiras conectadas através da Prefeitura, incluindo a Câmara Municipal, a Defesa Civil, a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros.

O portal de Mangaratiba está no ar há três anos e oferece serviços aos moradores, como a emissão online de guias de IPTU e ISS. O site ainda conta com um cadastro de 600 estabelecimentos e prestadores de serviços no município. Segundo a Prefeitura, o portal tem média de 4.150 visitas mensais, sendo 30% do exterior, como EUA, Alemanha, França e Portugal – o que é essencial para atrair turistas.

Data: 12 de março de 2008
Antenas em Santo Antônio/Divulgação Antenas em Santo Antônio/Divulgação Mangaratiba/Divulgação Mangaratiba/Divulgação Projeto Internet Escola/Divulgação Telecentro Comunitário Biblioteca Municipal/Divulgação Telecentro Comunitário de Itacuruçá

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